A gente esquece que nos últimos 20 ou 30 anos das nossas vidas nós ainda estaremos vivos.

Não é nenhuma novidade pra ninguém que desde que me mudei pra Londres comecei um processo estranho de me redescobrir, e não estou falando de um processo natural, gostoso e poético, estou falando de uma cabeça que gira feito peão, se perde, enlouquece, morre de medo de paralisar pra sempre e depois, finalmente, aprende com essas mudanças e começa a enxergar o mundo de outra maneira. Pois é, nem todo caminho é repleto de folhas, sol e flores, às vezes a gente põe o pé na lama, pisa na merda de cavalo e se arranha no meio do matagal, mas isso não faz com que a história seja menos bonita. Ela pode ser maravilhosa, só que estou falando de um tipo diferente de beleza, aquele tipo cheio de licenças poéticas, que teve tanto erro e desencontro que muitas vezes engana, faz parecer que está dando tudo errado, mas…

 

…é justamente quando está tudo imperfeito e sem sentido que nós aprendemos a descobrir nossa verdadeira essência e valorizar aquilo que no meio do caos nos traz equilíbrio, ou talvez eu possa chamar isso de ’suspiro da paz’. E foi isso que aconteceu comigo há algumas semanas. Eu cheguei à conclusão de que estou entrando na crise dos 30, e olha que ainda falta um ano e meio pra eu fazer parte desse time. Minha crise não tem a ver com estética, saúde ou menos tempo de vida, meu problema é que quero fazer tudo ao mesmo tempo, me sinto mais viva do que nunca, e é claro que tudo isso me traz muita ansiedade e as vezes até me paralisa. Mas foi no meio de tantos planos, medos, vontades e ansiedades que descobri uma mina de ouro.

 

Um senhor Alemão de 73 anos sentado ao meu lado na sala. Ele é cheio de manias e tem o sotaque mais forte que já ouvi na minha vida, embora fale inglês super bem. Ele é o tipo de pessoa que pensa em voz alta e constrange todo mundo enquanto faz isso, do tipo que come a mesma comida todo os dias, que ama ópera e que toca órgão. Mas isso tudo que estou descrevendo é muito fácil de descobrir, pois ele te conta nos 2 primeiros minutos que te conhece. A mina de ouro que me refiro é algo muito maior, algo que ninguém naquela sala, e talvez no mundo, foi capaz de enxergar: estou falando de VIDA. Sim, vida, no sentido mais puro e verdadeiro dessa palavra. Estou falando de alguém que perdeu a esposa no ano passado e neste ano fez 4 viagens internacionais, duas delas para aprender novas línguas, uma para apreciar a música e a outra pra descansar de tantas viagens.

 

Um dia desses ele me contou como era seu dia-a-dia na Alemanha, me disse que gostava de fazer Sudoku vendo TV, de cozinhar sopa, tomar meia garrafa de vinho e comer chocolate todas as noites enquanto olhava pela janela. Depois que disse isso me perguntou se eu achava que quem bebe meia garrafa de vinho por dia era alcoólatra. Eu sorri e disse que não, mas confesso que passei um tempinho pensando nisso depois que ele saiu da mesa, e o que eu realmente acho é que quem bebe meia garrafa de vinho todos os dias pode ser considerado um alcoólatra sim, basta dar um Google e checar, mas se essa pessoa for uma amante da vida com mais de 70 anos, alguém com mais disposição do que todos os jovens na casa dos 20/30/40/50/60 que conheci na minha vida e principalmente alguém que perdeu há poucos dias sua companheira que estava ao seu lado por mais de 50 anos, nesse caso eu acho que ela tem o direito de fazer aquilo que lhe faz sorrir, não importa o que seja.

 

Esse senhor é o segundo idoso incrível que conheci no último ano, a primeira foi uma japonesa de 72 anos que é pintora e muito mais moderna e jovem do que eu. Em meio as minhas crises típicas de uma jovem velha, aprendi que a gente tem mania de esquecer que nos últimos 20 ou 30 anos das nossas vidas nós ainda estaremos vivos. Pois é, desde cedo costumamos planejar apenas descansar nessa fase, mas confundimos descansar com deixar de viver. Aqui nessas bandas do mundo onde eu moro eles me ensinaram que depois dos 70 você pode fazer o que lhe der na telha, desde que realmente faça algo.

 

Esse mesmo senhor me disse, um dia antes de voltar para Alemanha – enquanto me contava sobre sua próxima viagem para Áustria, que ele descansa muito, mas que descansar não é ficar o dia todo sentado na cadeira de balanço, é fazer um esporte, caminhar, conhecer novos lugares e culturas, aprender línguas, criticar os filhos, comer o que gosta e o que lhe faz bem, e no final do dia ter todo o tempo do mundo pra ficar na sua cadeira de balanço. Mesmo que você termine sua vida sozinho, é uma escolha sua permanecer sozinho e parado enquanto você poderia estar voando.

 

É claro que alguns velhinhos  e jovens sofrem muito com a perda dos parceiros, e fica muito fácil aconselhá-los a sacudir a poeira quando estamos de fora apenas palpitando. Se trata de uma vida juntos, hábitos, família e sonhos, são tantos os motivos para sentir uma dor imensa que para quem ama outro alguém fica difícil até imaginar passar por isso. Mas, como diz o ditado popular: se temos uma certeza na vida é que iremos morrer. Pois então, quem está vivo tem duas escolhas, ou espera a morte chegar sentando na poltrona ou continua vivendo. No final, independente do baque, precisamos perceber que devemos continuar vivendo, mesmo que a dor nunca passe. A vida é linda, mas às vezes é bem cretina e insensível, quando você mais precisa dela ela cospe na sua cara a mesma mensagem fria, insensível, manipuladora e abominável porém realista que os nazistas planejavam espalhar pela Reino Unido depois que invadissem o país “keep calm and carry on”. O ataque não deu certo, mas a mensagem que ficou famosa, virou moda e até piada na internet, nos ajuda a entender que mesmo abominando o contexto em que a vida nos coloca não temos escolha, precisamos continuar. Devemos viver a tristeza, nos permitir desistir por um dia, uma semana, um mês ou um ano, mas também devemos permitir que essa tristeza vá embora e fique guardada na caixinha das lembranças.

 

Tudo isso mexeu muito comigo. Me encantei tanto pela vida que parei por uma hora, enquanto o dia se transformava em noite, depois de fazer mil coisas, fazer mil planos e enfrentar meus medos, de pensar nas minhas milhares de obrigações, pude enfim respirar e sorrir. Diante apenas dos meus pensamentos cansativos e do prazer, preferi ceder ao prazer. Nesse momento eu percebi que ser feliz tem mais a ver com a nossa relação com a solidão do que com as coisas e pessoas que conquistamos, e descansar tem mais a ver com encontrar sua paz interior e a sua definição própria e particular do prazer do que com calar o seu corpo e sua mente em um estado vegetativo. Quando aprendemos a lidar com quatro paredes e apenas nossa própria companhia, descobrimos sozinhos quem realmente somos, e a partir daí passamos a entender como podemos nos relacionar com os outros, qual é a nossa verdadeira forma de nos relacionar. Não por acaso os monges meditam sozinhos, pois é a partir da nossa própria consciência que podemos nos acalmar, nos aceitar, encarar os medos, os erros, nos desculparmos, nos renovarmos, nos amarmos e sermos felizes. Só depende de nós.

 

Quem tem medo da solidão passará a vida inteira pensando nela. A pior maneira de evitar aquilo que nos incomoda é fugir disso.

 

Desta vez devo minha reflexão aos meus amigos experientes, que diferente dos mais jovens que em sua maioria (incluindo eu) apenas reclamam, falam de beleza física, moda e contam vantagens, eles me falaram sobre a vida, o amor, o prazer e a realidade de como será bom envelhecer. O quanto antes pararmos de ter preconceito com os mais velhos e achar que eles não deveriam andar na rua sozinhos, fazer esforço ou beber e comer o que querem, mais rápido conseguiremos enxergar a beleza e a vivacidade que eles tem para nos mostrar. Os mestres estão soltos por aí, prontos para nos ensinar, mas estão sendo tratados como crianças incapazes e dependentes, quando na verdade são eles que não precisam do Google para sobreviver, ou melhor, para viver.

 

A partir de hoje faço apologia à vida, seja qual fase dela que eu estiver. Não precisamos ter pressa ou ansiedade para colocarmos nossos planos em prática, para viajar o mundo ou para ganhar dinheiro pois em nossas vidas caberá tudo que queremos fazer, desde que não machuquemos nosso corpo e mente. A calma é uma dádiva das almas maduras, e eu tenho uma invejinha branca deles por isso, e essa é a moda que eu mais quero copiar. Que de hoje em diante eu possa ter calma e viver ao invés de correr.

 

Crise dos 30 existe para quem tem só mais 30 pela frente, eu já me curei disso, terei mais 60 anos para viver.

Coloco aqui um trecho bem legar de uma entrevista bem interessante com o Ricardo Darín (ator Argentino) que ele fala sobre solidão: https://www.youtube.com/watch?v=J1SBc18oCb8

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