Neste novo ano desejo apenas que meus planos sejam apenas planos, que não sejam transformados em metas.

Enfim de volta. Depois de passar 30 dias de férias e metade deles no Brasil matando as saudades de tudo e todos, cá estou eu, novamente em Londres, e ela está ainda mais fria, escura e mais do que nunca representa o oposto do Brasil. Desde que voltei, todos os dias quando acordo sinto ainda mais sono quando olho pela janela e percebemos que preciso de muita coragem para encarar o que vejo lá fora. É claro que minhas dificuldade por aqui são muito mais complexas do que a temperatura ou a claridade, mas essa dupla ajuda bastante a piorar as coisas.

 

O ano acabou, outro começou, mas algumas dúvidas e sentimentos permanecem. Invejo muito aqueles que conseguem deixar todos os problemas no passado simplesmente porque alguém inventou que em 365 dias tudo se renova. Seria ingenuidade da minha parte proclamar aqui “ano novo, vida nova!”. Mas, devo dizer que como a maioria faz nessa época do ano, eu também visualizei minha retrospectiva do ano anterior e pensei em como eu gostaria que fosse esse novo ano. E quer saber o que acho mas curioso em fazer isso? É que tenho a sensação de que sempre que juntamos todas as experiências de um ano inteiro em um único montante, em uma rápida retrospectiva mental, elas parecem fazer muito mais sentido do que quando pensamos isoladamente em cada uma delas, ou melhor, do que quando de fato vivemos cada uma delas, dia após dia. As vezes reclamamos de acordar cedo, trabalhar, estudar e etc, mas no final, quando nos comparamos do início ao final do ano, percebemos o quanto evoluímos, mesmo que para isso tivemos que reclamar todos os 365 dias.

 

Durante minha meditação sobre o que desejo para este novo ano que chegou me notei um pouco relutante, um pouco seca comigo mesma. Parecia que eu não queria esperar nada desse novo ano. Nunca tinha me sentido assim antes. Foi como se eu não desejasse nada. Mas quanto mais estranha eu me sentia, mais tentava me obrigar a fazer planos, mas a única coisa que eu consegui desejar verdadeiramente foi:

  • Neste novo ano meus planos serão só planos, não serão transformados em metas.

 

O fato é que desde que eu tinha 15 anos e trabalhava em uma loja de shopping, passei a ser a rainha das metas. Fazia isso porque uma vez participei de um treinamento da loja que eu trabalhava em que disseram que para crescer profissionalmente precisamos saber aonde queremos chegar e por isso precisamos sempre traçar metas para conquistar nossos objetivos. Desde esse dia passei a sempre saber aonde eu queria chegar, me punir quando não atingia as metas e, pior de tudo, me pressionar toda santa feira para dar um passo para frente, da segunda até a sexta. Infelizmente não posso assinar essa história que acabei de contar apenas com o meu nome, pois conheço muitas pessoas com a mesmíssima história. Nós nos apegamos tanto aos planos que naturalmente, mesmo sem ter tido a palestra sobre o assunto como eu tive, fazemos deles metas e nos tornamos obcecados por eles e muitas vezes até ficamos doentes. É muito mais comum do que parece escutar pessoas preocupados dizendo que ainda não compraram suas casas, não se casaram e não foram promovidos a gerentes e já estão com quase trinta anos…Mas esse ano me peguei odiando esse discurso, me peguei querendo distância de pessoas que proclamam esse tipo de reclamação. Decidi que para minha vida quero algo mais honesto, mais justo.

  • Ao invés de pensar no que ainda não tenho, no que desejo ter ou no que eu deveria ter, decidi que irei apenas pensar em tudo que já vivi e construi.

 

No meu caso, eu trabalhei 10 anos com publicidade, morei sozinha, me casei, comecei a correr, comecei a escrever com mais frequência, adotei uma coelha, mudei de país, fiz milhares de amigos pelo mundo, viajei, melhorei como cozinheira, aprendi a limpar meu banheiro sem rodo, sofri quando minha coelha e meus cachorros morreram, vi umas 10 séries e estou esperando sair novas temporadas de 5 delas…enfim, o fato é que eu não comprei um apartamento, não fiz festa de casamento, não virei diretora de atendimento em uma agência de propaganda e nem sei quando tudo isso vai acontecer, se é que vai acontecer um dia, mas e daí?

 

Quando paramos de pensar no que não conseguimos, não temos ou não alcançamos e passamos a pensamos em tudo que já vivemos, construímos e aprendemos, paramos de nos fazer de vítimas da vida e mudamos nossas perspectivas, passamos a agradecer mais, mesmo que o ano tenha sido difícil, duro e injusto conosco acabamos entendendo que cada acontecimento direta ou indiretamente colaborou para sermos quem nos tornamos e, claro, nos valorizamos mais pois finalmente entendemos que quanto mais duro, mais sofrido, também mais proveitoso foi. É como diz uma frase grosseira, porém inteligentíssima que decorei de um dos meus filmes favoritos: “If you wanna get to the castle, you need swim in the moat”. Pois bem, cá estou eu, com meus últimos anos repletos de “moat”, mas também com a alma mais leve, o coração maior e a sensação de ser uma eterna aluna da vida, cheia de energia e absolutamente cheia de dúvidas.

 

Pois é, poderia dizer que meu novo sobrenome é dúvida. Reuno dentro de mim absolutamente todas as dúvidas que um ser humano poderia reunir. Acho até que devo estar pra entrar no livro dos recordes como a pessoa com mais dúvidas no mundo. Mas quer saber? Hoje considero minha personalidade em forma de “question mark” uma benção, tenho até percebido que naturalmente me afastei de todos aqueles amigos que tem certeza de tudo. Hoje minha piada favorita é uma que eu mesma inventei:

Quer fazer alguém ter depressão? Dê dinheiro, passagem, moradia e peça pra ela escolher o que quer fazer da vida no país que ela quiser.

 

Se pra você isso parece piada de burguês, acredite, essa frase tem um belo fundo de verdade. Em um mundo onde crescemos sem grandes opções, naturalmente nos tornamos inexperientes nessa historia de ser livre e deixar a vida nos guiar. Sinto informá-los que a liberdade assusta e muitas vezes enlouquece. A verdade é que só existe um caminho para ser livre: fazer amizade com as suas dúvidas. Quanto mais tranquilo estiver ao lado delas, mais livre será.

 

Leva tempo e muito suor para pegarmos o jeito desse jogo de liberdade. Quando desconstruímos nossa base, nossas referências, quando saímos da nossa zona de conforto e nos colocamos em situações frágeis, somos obrigados, sem aviso prévio, e-mail ou qualquer tipo de notificação, a nos reinventar. É claro que, na maioria das vezes, nossa reação não é positiva, nós nos deprimimos ou sentimos raiva das nossas escolhas, do nosso destino ou seja lá o que foi que nos colocou nessa situação caótica e totalmente inesperada. Tudo isso nos faz criar uma redoma de insegurança em volta de nós e passamos a desfrutar das dores e delícias de viver o tão famoso “Choque de Realidade”. Mas muitos de nós, como eu por exemplo, ficamos presos no passado, mas não porque ele era perfeito, feliz e sem problemas, mas porque ele era mais ‘seguro’ do que agora. É muito difícil receber uma mensagem direta da vida, gritando na sua frente a frase assustadora, porém realista:

  • Você não controla nada!

 

Normalmente retrucamos bravos, defendendo e acreditando na novela que nós mesmos criamos. Achamos que podemos planejar tudo, do casamento à aposentadoria. Dificilmente temos coragem de parar a bola e recomeçar do zero, pois quando a estabilidade entra em jogo nós nos aterrorizamos. Basta olhar para o lado ou para si próprio para perceber isso, muitas pessoas continuam completamente infelizes no trabalho, beirando a depressão, apenas porque já caminharam tanto até chegar lá, ou porque a empresa é grande, boa ou famosa. Poucas pessoas assumem o risco de fazer o que realmente querem. É claro que entendo que tudo isso é difícil quando é casado, tem filhos e etc, mas na verdade é ilusão achar que ficar lá, parado no mesmo lugar será seguro. Parece que estamos esperando a vida tomar uma atitude drástica e nos mostrar, seja nos colocando sozinhos em um país estranho e escuro, nos dando uma doença grave para encarar de frente ou até mesmo levando a vida de algum parente ou amigo próximo. Sei que parece muito clichê e repetitivo dizer isso, mas de fato passaremos a sofrer bem menos quando aprendermos que nunca estamos seguros. Pessoas morrem todos os dias e outras evitam a morte, isso faz parte do jogo. Precisamos apenas a fazer aquilo que sentimos, precisamos apenas andar pra frente sem medo de derrapar, pois ficar parado não é uma opção segura. De que adianta ter medo de perder o chão se na verdade ele nem existe?

 

Não vou ser hipócrita de dizer que é fácil mudar de vida, de profissão, de namorado, marido, cidade, país…mudar qualquer coisa requer coragem, paciência e dedicação. Muitas vezes sofremos quando acordamos e olhamos pela janela e vimos dias frios e escuros, e sofremos mais ainda quando percebemos que talvez será por muito tempo assim, mas quer saber o que faço quando me sinto assim? Eu coloco uma música que me faz bem no ultimo volume (a ponto de todos à minha volta escutarem, mesmo eu estando de fone de ouvido), agradeço por mais esse dia e penso “Qual o pior que pode acontecer? Morrer? Pois então que o último dia seja o melhor deles!”. Não, eu não acordo mais feliz no dia seguinte, nem sequer mais confiante, mas de alguma forma eu me encho de combustível quando faço esse ritual, ou quando escrevo, ou quando penso em tudo que ganhei de presente depois que abri mão da minha zona de conforto e aceitei as mudanças que a vida tinha para me oferecer.

 

A verdade é que não existe segredo para ser feliz todos os dias, existe apenas nosso equilíbrio, que nos mostra sempre os dois lados. Mas se por acaso tudo parecer ruim demais pra se equilibrar, repita para você mesmo as palavras de Lenine:

“…você sofre igual todo mundo, mas apenas não se afunde em um sofrimento infindo. Vá até o fundo de um poço de dor profundo, mas volte depois sorrindo. Em tempos de tempestades e diversas adversidades, equiíbre-se e requebre, seja tal qual a vara, envergue-se mas não quebre. Quando ja não da pé, não se revolte e se queixe, volte firme pro seu eixo. Em noites de festa, erga seu copo e celebre os bons momentos da vida, mas também os maus tempos da lida. Envergue sempre, mas não quebre!!”

 

Quando me mudei para Londres estava empolgada com as milhares de oportunidades que a cidade me traria, mas hoje percebo que esse processo de mudança foi de fato positivo, mas não exatamente como eu imaginava, aliás nada na minha vida foi como eu imaginava, mas quando olho para trás percebo que foi tudo tão bom que eu nem seria capaz de imaginar, e se alguém me contasse, fizesse uma previsão do futuro, eu provavelmente não acreditaria em nada e pediria meu dinheiro de volta. Não, não está sendo e nem foi fácil, mas isso não significa que não esteja sendo bom. Estou vivendo 10 anos em um, aprendendo muito, não tanto profissionalmente como planejei mas muito pessoalmente. Sem essa experiência eu nunca teria descoberto esse lado sensível, inseguro e até mesmo medroso da minha personalidade, que me fez me despir das minhas teorias sobre ser feliz e me colocou diante de uma nova Johana, ainda um pouco confusa sobre os planos para o futuro, mas exatamente pelo fato de estar confusa estou mais livre. Sempre quis entender na prática o que o Renato Russo queria dizer quando cantava “…ser tão criança a ponto de saber tudo”. Hoje tudo faz sentido, quando somos crianças (de idade ou de alma) temos certeza do que queremos ser quando crescer, dos nomes dos filhos, onde queremos morar e etc, mas quando crescemos a vida nos mostra que o melhor que ela pode nos oferecer é a possibilidade de podermos recriá-la mil vezes, de nos perdermos entre nossas milhões de vontades e, principalmente, de não sabermos que existem tantas possibilidades que quanto mais aprendemos mais percebemos que ainda não sabemos nada. Não tem nada de errado em não saber o que quer fazer, aonde quer morar ou até mesmo quem você é, esse é apenas um processo natural da maturidade, que na minha opinião não precisa ser resolvido ou decifrado, precisa apenas ser aceito, respeitado e vivido, pois na hora certa saberemos o que realmente queremos.

 

Pois então eu começo meu 2016 contra o fluxo. Não espero nada dele, apenas peço que me surpreenda e, ao invés de listar minhas metas e tarefas, listo aqui meus agradecimentos por tudo que ja vivi:

Sou grata por não ter uma casa própria, um carro e não ser diretora em uma agência de propaganda, pois a ausência de tudo isso me mostrou que eu só tenho na minha vida o que eu realmente preciso e o que eu realmente quero, sou grata por todas as apunhaladas que levei nas costas que me fizeram mais atenta, pelas desilusões que me fizeram mais realista, pelos “nãos” que me fizeram mais insistente, pelos exageros que me fizeram ser mais calma, pelos erros que me deram experiência, pelas dúvidas que me deram equilíbrio, pela falta de dinheiro que me fez mais consciente, pelas críticas que me fizeram mais mulher, pelas falsas amizades que me fizeram menos Poliana, agradeço tudo que não me matou, apenas me tornou mais forte, mais experiente.

(aqui coloco a genialidade do Lenine em forma de letra e som: https://www.youtube.com/watch?v=BH9iFQYwrjA)

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