O que é mais importante, ser feliz fazendo o que ama ou correr atrás de dinheiro?

Desde criança sempre tive um tipo de raciocínio que batizei de “raciocínio cascata”. O nome é engraçado, mas não poderia ser mais perfeito. Sempre quando penso em qualquer coisa, pode ser simples ou complexa, me vem em seguida o “raciocínio cascata”, por exemplo: “Nossa, que dia lindo! > Preciso sair para correr e aproveitar o dia! > Nossa, estou atrasada, preciso ir logo, já, já o sol vai embora! > Nossa por que todos os dias não são como esse? > Porque não vou morar na Bahia de vez? > Ah, é porque não tenho dinheiro. > Preciso ganhar dinheiro pra depois me aposentar lá! > Mas la é perigoso, acho melhor Miami! > Nossa, mas é caro hein, preciso trabalhar muito! > Acho melhor eu voltar pra casa e pensar em algo que me dê dinheiro”. Outro exemplo: “Nossa, que linda essa foto de Fernando de Noronha! > Como moramos tanto tempo no Brasil e nunca fomos para lá? > Precisamos ir pra lá! > Já sei, quando fomos visitar nossa família tiramos uma semana a mais de férias e vamos pra lá!> mas precisamos de dinheiro! > Preciso trabalhar muito até lá”.

Exageros à parte nos exemplos, eu juro que penso assim. Pode ser qualquer assunto, no final sempre chego em duas palavras: Dinheiro e Trabalho.

 

Agora pensem como deve ser fácil pra mim largar meu trabalho e ficar aqui em Londres, cheia de tempo, andando pela rua e, para onde olho, tudo é cobrado em libra (leia-se R$ 6.20 para cada libra gasta)…É, as vezes preciso ler meus próprios textos para me convencer do meu blá blá blá de que estou passando por uma mudança, estou aprendendo a viver com menos, estou me acostumando a um vida típica aqui na Europa, estou me desapegando dos exageros brasileiros, estou amando, ufa, amando, você nem imagina o quanto…e quando eu não me convenço sozinha, apelo para as universitárias nesse assunto, assim como eu, minhas amigas brasileiras que estão aqui da mesma maneira que eu. O fato é que no final, por mim mesma ou por elas, sempre sou convencida de que de fato sou feliz hoje, de fato preciso de bem menos, de fato trabalho e dinheiro não são a única necessidade da minha vida e, por fim, de que de fato minha missão nessa fase da vida não tem nada a ver com trabalho, dinheiro ou carreira, tem a ver com mudança de comportamento, com crescer, com me preparar para entender melhor a vida, expandir e, por fim, ter conhecimento suficiente da vida para…Ter sucesso na empresa que pretendo abrir? Para ficar rica? Para me candidatar à presidência do Brasil? Não! Para ensinar aos meus futuros filhos o que, por experiência própria, acredito ser importante na vida, pois esse sim é o meu melhor plano de vida: Ter filhos. (Não agora, rs, mas em alguns anos).

 

Acho que ja deu pra perceber que não sou uma boa pessoa para dizer “desapeguem do dinheiro, ele não importa!”, mas também não sou uma boa pessoa para dizer “trabalhem, pois dinheiro compra tudo nessa vida!”. Ao contrário do que deve estar pensando depois de ler essa frase, eu não sou perfeita e não tenho o equilíbrio entre as duas coisas, eu sou apenas alguém no caminho, entre esses dois mundos.

 

Quem me conhece sabe que amo moda. Ops, para tudo! Claro que eu amo moda, mas eu sempre critico quando alguém diz que ama moda mas está querendo dizer que ama comprar, ou seja, não ama moda e sim consumir moda. Pois é, enfim, o fato é que eu amo os dois! Além disso, amo viajar e jantar fora. Fico até sem ar, ansiosa de pensar qual o próximo lugar na Europa que quero visitar, às vezes me pego gritando nome de países e cidades mais alto que meu marido de tanta empolgação em pensar na viagem. Mas por outro lado, sou uma pessoa que da atenção aos detalhes, que não precisa de muito para ter o dia mais feliz do ano, que é capaz de doar a roupa do corpo, mesmo que tenha sido cara ou que seja minha preferida, se vir alguma criança passando frio. Enfim, eu como todos vocês, tenho os dois lados, sou meu próprio oposto, não faço nenhum sentido e, pior, fico procurando sentido e rótulos para mim mesma: “Mas amor, eu sou uma pessoa fútil ou desapegada materialmente?”. O fato é que eu e todo mundo temos que jogar um jogo duro e quem me conhece sabe que odeio jogos, seja de cartas, esportes, dominó ou o jogo da vida. Odeio jogos que alguém ganha e outro alguém perde. Mas questões psicológicas à parte, todos nós sabemos que não dá pra viver no mundo de Poliana depois que já temos uma vida de adultos, precisamos entrar no ritmo, nos sustentar, construir do zero o que planejamos, e claro, para isso precisamos jogar, gostando ou não. Mas é nessa hora que paramos e pensamos, questionamos, avaliamos os esforços, buscamos nossa essência e nos deparamos com a pergunta:

O que é mais importante, ser feliz fazendo o que ama ou correr atrás de dinheiro para realizar nossos sonhos?

 

Não sou a dona da verdade, aliás, neste contexto que me coloco, escrevendo sobre meus pensamentos, me torno ainda mais frágil do que qualquer pessoa, afinal, abro meu coração, minhas inseguranças e minhas certezas para o mundo, deixando que entrem na minha vida sem bater e pedir licença e concordem comigo ou discordem totalmente. Mas, quem me conhece sabe que acredito que a única certeza que temos é que estamos aqui e, portanto, devemos fazer valer nossa estadia nesse mundo. Sendo assim, devemos nos posicionar com relação à tudo, pois todo e qualquer assunto é assunto nosso, tem a ver com a gente e nós temos opinião. Me dê um tiro na testa, mas não deixe de dar sua opinião. Pessoas sem opinião são apenas ignorantes, mas pessoas que omitem sua opinião são covardes. Sendo assim, perco os amigos, a família, perco o trabalho, mas não minto sobre o que penso. Nesse caso, voltando ao tema da vez, por sorte o que penso é bastante conveniente e agrada à gregos e troianos:

As duas coisas são importantes: seja feliz e tenha dinheiro!

 

Mas calma! Nada é tão simples assim. Devo dizer que a geração Y, geração da qual pertenço, na minha opinião, pensa da forma correta mas escolheu o caminho errado para conquistar a tão procurada felicidade. Para quem não sabe, a geração Y é conhecida como a geração que trabalha com o que ama. Acho essa ideia incrível e estou indo por esse caminho também, mas o que discordo é que não se deve colocar apenas no trabalho o peso de ser feliz. Basta pensar de fato no assunto: ninguém é feliz todos os dias no trabalho, mesmo fazendo o que ama, até quem alimenta pandas bebês órfãos deve reclamar do trabalho para esposa (ou marido) quando chega em casa. Acho que devemos sim procurar um trabalho que nos faça feliz, mas até ai dizer que ser feliz é trabalhar com o que ama? É muito triste relacionarmos uma vida feliz ao nosso instrumento de “ganhar dinheiro”. Ser feliz é muito, mas muito mais do que isso. Tem muito mais a ver com o que você faz antes e depois do trabalho do que somente com o momento em que você está lá. Buscar a felicidade é como reger uma orquestra, e o trabalho são só os instrumentos de sopro, além deles tem muito mais, tem a família, os filhos, os animais, a natureza, a pobreza na África, um curso de culinária, correr mais 5km do que de costume, aprender uma nova língua, fazer uma surpresa para alguém que ama, enfim, o mundo é tão grande, como podemos nos limitar à algo tão pequeno? Será que a gente não percebe que o Google é só a primeira empresa a jogar o jogo de felicidade no trabalho que a geração Y busca? Se essa é a tendência, as empresas provavelmente vão se adequar a isso, mas pobre da geração Z, que irá começar a trabalhar e terá o trabalho mais legal e perfeito do mundo, mas descobrirá que não era esse o problema desde o inicio, vai descobrir que a geração Y fez um resumo mal feito da felicidade, lutou por uma opinião e não por uma verdade.

Mas, calma ai, se não é o trabalho que vai resolver, como a gente faz pra ser feliz?

 

A gente segue tentando ser feliz nas 8 horas por dia em que estamos trabalho, assim como a geração Y está fazendo, mas se por acaso não tivermos um dia bom, ou odiarmos nosso chefe, se cansarmos do cliente ou simplesmente da profissão, devemos nos lembrar de que já iremos pra casa e ao invés de reclamar, chorar ou dormir porque estamos cansados, que tal irmos viver a parte feliz do dia?

Não deixe, jamais, a felicidade para amanhã ou para outra pessoa resolver por você. Se ela é sua, assuma a responsabilidade e vá trás dela todo santo dia.

Semana passada tive um exercício simples na aula de inglês, o professor escrevia um sentimento na lousa e nós tínhamos que defini-lo. Foi nessa aula que ouvi de uma colega francesa a resposta mais óbvia do mundo e, lamentavelmente, eu me surpreendi com a definição dela para a felicidade:

“Happiness is having a baby in your arms.”

 

Só isso. Ela não falou mais nada. Ela não colocou que para isso precisava ser uma enfermeira chefe bem sucedida do melhor hospital do país, ou o médico que fez o parto e estudou 10 anos antes disso, ou uma mãe que tem uma carreira brilhante e que está vivendo o dia tão esperado de sua vida…Não! É qualquer um de nós, em qualquer momento da vida, segurando um pequeno bebê. Talvez esse bebê nem seja humano, pode ser um cachorrinho, ou um gatinho. Simplesmente não tem regras e nem metas, a felicidade é simples assim.

E você, ja foi feliz hoje?

 

Pensando bem, eu até mudei de ideia: Trabalho é menos do que os instrumentos de sopro em uma orquestra, é apenas uma flauta sozinha. É claro que uma flauta fica linda em uma orquestra quando é bem tocada, mas existe muito mais do que ela para formar uma linda música. Não acredita em mim? Então escute você mesmo se o conjunto da obra tem mais força do que a flauta sozinha. Não precisa entender a letra ou entender de música, precisa apenas entender da vida para se emocionar ouvindo uma orquestra tocar:

https://www.youtube.com/watch?v=GD3VsesSBsw

 

Chore porque foi lindo, porque foi vivido, porque foi tudo junto e tudo tão importante quanto o trabalho e o dinheiro. Chore de alegria quando acabar a música e quando acabar a vida, porque juntando tudo ficou tão lindo e emocionante no final e não porque ganhou dinheiro, mas porque viveu e, btw, ganhou algum dinheiro.

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