O que você chama de casa?

Ando tendo uma rotina quite diferente aqui em Londres. Ultimamente minha vida se resume em apenas uma coisa: falar muito, escrever muito e ler muito inglês. Passo horas do meu dia estudando e as outras horas que me restam aproveito para descansar conversando com meus amigos – em inglês, claro.

 

Quando você entra no terceiro mês fora do seu país, sabendo que a volta está absurdamente longe, você começa a sentir sintomas de uma doença gravíssima: começa a se tornar um brasileiro patriota. Isso significa que você defende o Brasil toda hora, odeia quem fala mal mesmo que com razão e passa a considerar qualquer brasileiro que conhece parte da sua família. Em alguns casos mais graves esse amor se estende à qualquer latino. Mas fiquem calmos, especialistas afirmam que a doença é sua própria cura, pois na medida que ela se agrava vamos aumentando a carência mas também aumentamos o território do amor, até que depois de uns três anos já acreditamos que a Europa faz parte do Brasil e enfim nos sentimos em casa novamente.

 

Quando meus amigos gringos me perguntam se pretendo ficar aqui em Londres pra sempre, eu geralmente respondo ˜I miss my home”. Essa resposta parece estar gravada na minha cabeça e no meu coração. Mas um dia desses, quando soltei essa frase à uma amiga, ela me respondeu: “Então sai mais cedo da aula e vai pra sua casa descansar. Amanhã você vem mais animada pra aula”. Por um minuto pensei que meu inglês estava um lixo e que ela não tinha entendido que eu estava falando do Brasil e não do meu apartamento. Então, como de costume, eu repeti e reforcei: “Estou falando do meu país. Eu sinto falta do meu país˜. E prontamente, ela retrucou dizendo ˜Eu entendi o que você disse, mas quem disse que lá é sua casa? Sua casa agora é aqui!”. Fiquei quieta. Sem dúvida a conversa acabou por ai, mas minha cabeça estava apenas começando a pensar no assunto.

 

As raízes dos seres humanos são profundas, assim como as dos gatos. Experimente tirar um gato do seu território e verá o que acontece. Posso garantir que a experiência é assustadora. Eles se encolhem, se escondem e perdem o rumo até que se acostumem, lentamente, com o novo território. Pois é exatamente assim que aconteceu e ainda acontece comigo. Quando digo que sinto falta da minha casa/meu país, quero dizer que lá eu conheço todos os caminhos, as ruas, as esquinas; lá estão meus primeiros e meus eternos amigos; lá estão aqueles que me alimentaram, me mimaram e me ensinaram sobre a vida; lá tenho um sol diferente, um sol que queimava minha pele e me deixava vermelha desde quando eu era criança; lá tenho meu mar, um mar diferente, um mar que me conhece e que me abraça quando entro nele; lá tem as férias na Bahia e o trabalho em São Paulo; lá tem piada com o sotaque do outro, mas um é mais lindo que o outro. É claro que chamo meu povo de irmão e meu país de casa. Algumas noites vou dormir triste por estar longe e com uma frase que ouvi no seriado “Narcos”, dita pelo Pablo Escobar, na cabeça“Prefiro morrer ao deixar meu país outra vez. Ninguém pode ser feliz longe de casa˜.  

 

Mas agora, depois do tapa na cara que levei da minha amiga e com minha cabeça borbulhando de questionamentos, parei e pensei friamente (é claro que tive que calar o Caetano Veloso que tocava desesperadamente e repetidamente no meu computador): Como posso chamar de casa um lugar que tenho medo de caminhar nas ruas? Como posso chamar de casa um lugar aonde meus irmãos podem me machucar, me roubar ou até me matar a qualquer momento? Como posso chamar de casa um lugar aonde jogamos lixo no chão e merda no rio? Como posso chamar de casa um lugar que só está nas primeiras páginas do jornais internacionais quando acontece um escândalo político? Como posso chamar de casa um lugar que estampa em sua face mulheres nuas como atrativo principal? Pois é, como uma boa bipolar, não posso negar que na manhã seguinte daquela noite saudosa que comentei acima, acordo cedo, vejo uma notícia absurda sobre o Brasil que algum amigo publicou no face e repito, bem de saco cheio, a versão popular da letra do Renato Russo “Que país é esse? É a porra do Brasil!”.

 

Posto os dois lados da moeda ou melhor da cabeça maluca dessa que vos fala, penso que assim como já escrevi em outro texto meu (que ainda não publiquei aqui), não existe perfeição e felicidade absoluta, alguns dias estamos mais para rosa e outros mais para preto. Precisamos apenas aprender a ter equilíbrio e segurar as emoções, sem ser radicalmente rosa ou preto, e aprender a enxergar a beleza dos dois lados. É claro que eu poderia passar o dia escrevendo sobre coisas boas e ruins do meu país, mas minha questão aqui não é sobre pátria, e sim sobre casa.

O que afinal eu chamo de casa?

 

Aprendi que casa tem mais a ver com momento do que com endereço. Descobri que quando me mudo levo comigo minha casa. Ela não é física e não pode ser comprada, ela é simplesmente aonde eu quero estar. Sabe a tartaruga? Então, me sinto como ela. Eu simplesmente juntei minha vida em um casco e carreguei nas minhas costas, lentamente, com medo, às vezes cansada, mas carreguei para onde eu queria ir. Ao meu lado vejo muitas outras tartarugas, que sorriem saudosamente quando falam da pátria que assina seus passaportes, mas que no fundo, assim como eu, sabem que nossa pátria mãe pode ser qualquer lugar que encontremos a paz. Nossos países são somente um pedaço de terra, mas nossos corações às vezes ficam maiores que essas terras e precisam expandir, fugir, ser livres, ser grandiosos, eles precisam ser pátria em outro lugar seguro aonde possam ver seu povo feliz ao seu lado, mesmo que a nacionalidade do seu novo povo seja diferente da sua. Na minha opinião deveria ter apenas um presidente no mundo e apenas representantes em cada país. O mundo deveria ser regido pelas mesmas regras e receber cada ser vivo de braços abertos em cada cantinho existente. Mas ao invés disso, nos ocupamos pensando em coisas pequenas como nossas linhas imaginárias que definem territórios, nossa língua mais importante e mais histórica do que a dos nossos vizinhos, nossos dinheiros imaginários que circulam em contas do “governo” na qual não temos acesso, ou nossas casas que pagamos fortunas para chamar de nossas e que na verdade não levaremos conosco quando passarmos desse mundo para o outro. Deveríamos estar gastando nosso precioso tempo ajudando a vida de bebês que nasceram na sombra do medo e saem de países em guerra civil praticamente a nado nas costas dos seus pais, e que agora, enquanto você está em um lugar quentinho tomando seu café or your English tea, eles já estão com a água no queixo, prontos para segurar a respiração. Acorda Brasil, acorda Europa, acorda meu povo, acorda mundo! Oremos pelo união das pátrias, para que apareçam humanos mais humanos que ajudem o próximo como ajudariam seus irmãos de sangue, pois é isso que elas são, possuem sangue vermelho nas veias, assim como o seu, como o meu, como o de todos que habitam esse nosso mundo…

 

…Ja dizia o sábio José Mujica: “Temos que começar a pensar como espécie e não como país. A generosidade é o melhor negócio para nós.”

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