O que você diria se tivesse que escolher algo para dizer ao mundo inteiro?

Pensei muito depois que vi o discurso do Leonardo Di Caprio na cerimonia do Oscar. Eu, como muitas outras pessoas, achei que ele foi genial. Sim, sou esse tipo de pessoa chata que acha que sempre devemos usar os momentos que estamos com a palavra, mesmo que sejam rápidos e com pouca plateia, para deixar uma mensagem maior do que um simples “obrigada”, acho que poucos momentos temos a atenção de mais do que cinco pessoas, sendo assim, temos que saber priorizar as coisas importantes e dizê-las, sem medo ou vergonha.

 

Se pensar verá que existem vários assuntos importantes como racismo, casamento gay, desigualdade social, saúde, educação, doenças raras, reciclagem, maltrato aos animais, imigração, guerra, corrupção…eu poderia encher um livro inteiro de prioridades, mas convenhamos, nada disso poderá ser discutido se acabarmos com o mundo em que vivemos. Por esse motivo achei que o discurso do vencedor do Oscar de Melhor Ator em 2016 foi muito bom e trouxe à tona uma verdadeira prioridade.

– Mas será que eu diria a mesma coisa?

 

Eu não sei. Aliás, tenho a impressão de que nunca consigo ter uma opinião clara sobre nada, pois sempre que estou discutindo com alguém sobre algo polêmico acabo me perdendo, pois encontro milhões de lados, justificativas e problemas aparentemente gigantescos que estão ligados à outros milhões de problemas e, claro, no final eu continuo confusa, só que agora com mais mil novos motivos para isso. Foi exatamente por isso que depois de pensar muito sobre a situação do nosso planeta e tudo que o Leonardo Di Caprio disse, acabei passando por milhares de outros problemas conectados a esse e finalmente entendi que algo que aparentemente está bem distante deste assunto tem simplesmente tudo a ver com ele, algo que  está na porta de milhares de igrejas, em letras de rappers famosos, em filmes e até mesmo no nosso dia-a-dia, resumindo, estou falando de:

Irmandade.

 

Pois é, é essa palavra velha e fora de moda que à primeira vista não parece importante, que eu escolheria pedir ao mundo. O motivo da minha escolha é muito simples. Minha mãe sempre me disse desde muito cedo com tanta naturalidade que nunca pude perceber como esse conselho era valioso e mudaria minha relação com o mundo:

“Não faça com o próximo aquilo que não gostaria que fizessem com você.”

 

Sim, isso é bem clichê, mas é uma pena que apenas pouquíssimas pessoas coloquem de fato em prática, basta perguntar-se: Você gostaria de ser bombardeado? De ser impedido de entrar em algum país? De ser chamado de terrorista injustamente? De ser tratado como um sexo inferior? De ser caçado dentro da sua própria casa apenas por esporte? De servir para teste de remédios e cosméticos? De ser explorado e mal pago? De ser impedido de estudar? De ser julgado, isolado e duramente criticado por ter cometido um erro? De ser enganado e roubado? De ser traído? De ser julgado inferior pela sua cor? De passar fome? De carregar alguém nas suas costas e mais milhões de cargas sem poder descansar um dia se quer? De perder sua pele ainda vivo para alguém mais importante que você vendê-la? De ficar atrás das grades para alguém te fotografar e saber que você existe de verdade? De comer cocô porque poluíram sua comida?

– Acho que não, né?

 

Isso e muitas outras coisas piores estão acontecendo agora e quem está sofrendo são nada menos do que os seus irmãos. Sim, aqueles que respiram como você, que vivem no mesmo mundo que você e são tão donos disso tudo como você, independente de serem humanos, plantas ou animais.

 

Esses dias um amigo meu disse que rato aqui em Londres é uma praga. Sem nem pensar repeti a frase que meu marido sempre diz: Rato é um animal, praga são os humanos que estão simplesmente por toda parte matando tudo que vêem pela frente. É claro que os humanos fazem coisas boas também, preservam, curam, ajudam e alguns até tentam consertar aquilo que outros estão destruindo, mas o lado destrutivo tem muito mais força e infelizmente está conseguindo acabar com os animais, plantas, rios, ar e até mesmo com outros humanos. Mais uma vez abusando dos clichês, o que será que vamos comer quando tudo já estiver morto? Dinheiro? Ou vamos comer os mais pobres? Sendo assim, a próxima vez que vir um rato, antes de gritar olhe bem para os olhos dele e peça desculpas por ter deixado ele sem casa e fazê-lo viver no esgoto. E se mesmo assim você ainda tiver nojo e medo de pegar uma doença, pense que ele sente o mesmo por você, mas o medo dele não é de morrer de leptospirose em uma cama de hospital com a família ao lado, é de ser assinado a pauladas e saber que isso é permitido, qualquer um pode fazer e ninguém irá preso por isso, é até considerado um ato positivo, afinal, “menos um no nosso mundo!”.

 

– É Leo, precisamos fazer alguma coisa por nós e pelos nossos irmãos. Eu não gosto apenas de falar, sou como você, gosto de agir. Se o mundo tá na merda, vamos enfiar a mão e tirá-lo de lá, não adianta esperarmos o famoso “alguém” fazer alguma coisa, pois o “alguém” somos nós.

 

Por mais difícil que seja consertar as coisas no estágio em que estamos, na minha opinião a solução para todos os problemas complexos é muito simples e podemos começar em qualquer hora e lugar. Para muitos trata-se de algo efêmero, pequeno, sem importância, mas a verdade é que tudo que é realmente grandioso é também muito simples:

– Defenda seus irmãos, tanto os de quatro patas, os de duas, os de mais de seis, os que não se movem e estão literalmente plantados, os que voam mas foram presos, os que moram longe e estão sendo injustiçados…todos eles. Esteja sempre do mesmo lado daqueles que ainda não foram corrompidos pelo dinheiro. Dinheiro é bom e todo mundo quer, mas não dá pra tê-lo a qualquer custo, uma vida vale mais do que milhões. Não se omita nunca, se agir ao invés de filmar, se falar ao invés de chorar, se pensar ou invés de repudiar o próximo, verá como o mundo mudará. Acredite que uma boa ação gera muitas outras e até ensina quem está assistindo.

 

Sei que alguns pensam que esse meu discurso é um pouco hippie chato, mas tenho certeza que muitos outros pensam como eu. Não gosto de dar nome às coisas, não sou hippie, mas sou uma cosmopolita que ama a natureza e abraçar árvores; não sou budista, mas medito enquanto corro, tomo banho e escrevo; não sou vegetariana mas me preocupo com os maus tratos em matadouros e desperdício de comida, procuro não desperdiçar, comer menos carne possível e sempre saber a procedência do que compro. É claro que eu gostaria de ter feito e fazer muito mais pelo mundo, como diz Kurt Cobain “I wish I was like you, easily amused, find my nest of salt. Everything is my fault, I’ll take all the blame, aqua seafoam shame…”, é claro que queria ser como os outros, queria me contentar apenas com a minha felicidade e felicidade da minha família, mas não dá, enquanto houver uma vida infeliz, explorada ou injustiçada, não conseguirei deixar de me sentir culpada, não sou do tipo que se refere aos problemas como “problema deles” e infelizmente meu sono tranquilo é prejudicado por isso.

 

Sempre discuto com amigos e família se é justo colocar mais filhos no mundo sabendo que é certo que eles irão sofrer as consequências do que fizemos. Eu sempre defendo que ter um filho não é trazer alguém para o sofrimento e sim fortalecer nosso exército da salvação, afinal, a solução de todos os problema está na educação e nas nossas atitudes. Se quer ter filho, ao menos faça com que ele aprenda a consertar o que destruímos.

 

E ai, topa ser nosso irmão? Acho que chegou a hora de mudarmos isso juntos…

“Come as you are, as you were,

As I want you to be

As a friend, as a friend, as an old enemy

Take your time, hurry up

The choice is yours, don’t be late”

(Mais uma vez citando Nirvana)

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