Um Brasil que é lindo e outro que fede.

(Viu, falei! Depois não vem dizer que não avisei!)

Passar um temporada em São Paulo foi bom. Chegamos com saudade da família, amigos cachorros, gatos e uma vontade daquelas de comer feijão. No carro tudo que eu olhava era lembrança e emoção. Ninguém podia falar mal da minha cidade suja e perigosa. O sentimento era confuso, aliás, tudo que mais tenho dentro de mim é confusão, uma confusão linda e parceira, quase tão clara e fácil de entender quanto as certezas de alguns. Eu estava feliz, genuinamente feliz, como quando estava a caminho do meu primeiro date com aquele que seria meu marido. Meu coração sorria e me obrigava a formular frases estranhas como “Como você conseguiu viver naquela cidade organizada e com arquitetura padronizada por um ano?”. É, o amor não é racional.

O tempo foi passando e em menos de duas semanas feijão ainda era bom, mas já não era mais novidade e o que parecia distante voltou a ser parte de mim. Eu estava em casa como se nunca tivesse saído, mas quando realmente era preciso olhar para dentro percebia que nunca mais seria a mesma.

Precisei voltar para casa para ver o quanto estou outra. Arranquei de dentro de mim o que tinha de mais brasileiro: o medo do amanhã, do inseguro, do mar aberto, o medo de voar, de correr sem parar e de falar o que realmente pensa. Perdi o medo do risco e fiquei sem filtro.

Hoje quero olhar para frente e ver possibilidades ao invés de incertezas. Quero ser aquela que tentou e falhou, aquela que pensou em algo mas mudou de ideia na ultima hora, aquela que achava que era uma coisa e virou outra, aquela que falou o que sentiu não o que tinha que falar. Eu quero ser o que existe de mais humano e imperfeito, assim como os filmes franceses que tanto amo, gosto porque neles tem atrizes com o corpo desproporcional e que quando choram o nariz escorre. Hoje sou feliz com o que tenho, com o que sou e o que vivi. Vejo no espelho meus defeitos e sorrio, aprendi a ama-los. Quando percebo que não sei algo também sorrio, mesmo que tenha vontade de chorar. Nós somos os nossos defeitos, nossos erros, nossos problemas, traumas, marcas e doenças, afinal, se todos fossemos perfeitos como nos filmes da Disney seríamos enfim todos iguais: chatos, brancos, magros e ricos.

Logo nas nossas duas primeiras semanas no Brasil eu disse ao meu marido que eu estava oficialmente enlouquecendo porque eu discordava de tudo que as pessoas me falavam, eu achava tudo um absurdo. Mas é óbvio que a vida não ia facilitar assim, se eu fosse louca tava muito bom, o mundo seria MARA e eu iria me internar, mas NÃO né! A realidade é um prato de merda pra comer no café da manhã, almoço e jantar:

  • As pessoas são preconceituosas pra c***** no Brasil.

 

Eu nunca tinha reparado nisso tão claramente. É claro que eu sempre soube que existia preconceito racial, social, machista e etc, mas nunca de que os preconceituosos ainda são a maioria em pleno século 21. Pessoas cheias de regras e de fórmulas nos perguntam sobre os muçulmanos perigosos, sobre qual o nome da escola que estudamos e geralmente nos aconselham a ficar em Londres. Acho isso engraçado, como alguém pode nos aconselhar a ficar em um lugar que nunca morou? Como alguém que não paga nossas contas avalia a qualidade de onde estudamos? Como alguém que só conhece muçulmanos por foto sabe que são perigosos? As certezas de uma sociedade que enxerga através da tela de uma TV e de Guias de viagens me deprime muito. Mas, então porque eu não soltei o verbo neles? Porque fiquei ouvindo tudo isso com cara de branca de neve? Porque eu literalmente fiquei chocada, mas como isso não é desculpa pra me calar, decidir falar por aqui, afinal, eu me saio muito melhor amontoando letras do que fazendo bafo, baixaria e confusão por ai (uma pena, mas essa é uma limitação minha).

A verdade é que quando sorrimos para algo que não concordamos com o objetivo de evitar uma discussão, estamos na verdade deixando de ser nós mesmos, deixando de propagar aquilo que acreditamos com medo da reação dos outros. Mas quando se diz o que pensa com educação você mostra um outro lado que talvez seja importante para o ensinar, envergonhar ou até mesmo confrontar aquele que diz o que pensa sem medo de te incomodar.

Quantas vezes já escutei pessoas enaltecerem alguém porque se casou com uma pessoa rica ou famosa, ou pior, filho (a) de famoso, quantas vezes escutei nomes de colégios e faculdades que eram mais importantes do que nomes de pessoas, quantas vezes escutei falar de pobres como se eles estivesses em um mundo distante… É, acho que chegou a hora de dizer aquilo que de fato penso, aquilo que de fato sou. Afinal, sou de família humilde e estudei, comi e fiz só o que deu para pagar. E isso tudo é maravilhoso, isso tudo sou eu e me fez assim. Eu conheço e amo muitos pobres desse mundo tão distante, sei como eles vivem, como são fortes, como sabem um pouco de tudo e como são genuínos e verdadeiros.

De uma vez por todas, aquele que é gay, trans, bi e etc só decidiu mudar as coisas na cama, tipo vegetariano que come algumas coisas e evita outras que a maioria prefere, sabe? Eles são como você, somos todos iguais. Os muçulmanos não matam nem mosca, os que matam fazem parte de uma organização criminosa, isso é sobre crime e não sobre religião. Os negros são EXATAMENTE iguais a você (na verdade geralmente são mais atléticos e bonitos, mas tenho certeza que vc consegue lidar com isso!), então vê se evolui porque cabelo ruim não existe, existe cabelo mais forte que o seu, e cor que defini classe social só vai continuar existindo se você continuar egoísta. Mulher é foda pra caralho e tem muita força, portanto desista dessa briga e saiba que se você é machista nós somos loucas, então é bom parar de nos mandar ir pra cozinha quando fica putinho e começar a pedir pinico porque foi uma mulher que te ensinou a cagar no vaso, sem ela você estaria sentando na merda até hoje. Ah, e quem tem menos dinheiro só tem menos dinheiro e mais nada, ta?! É preciso acreditar nessas pessoas e entender que colégios bons, viagens e faculdades formam excelentes profissionais mas que o colégio da vida forma rochas que superam qualquer parada, e isso também tem valor pra caralh*!!

Eu adoro repetir a teoria do filme do Batman, quando ele está preso naquela prisão submersa e fica tentando escalar a parede para fugir, mas nunca consegue, sempre perde o equilíbrio e os outros presos ajudam ele a descer pela corda. Mas ele fica intrigado porque sabe que uma criança, sem força muscular e preparo fisico conseguiu escapar há muitos anos atrás. Então depois de milhares de tentativas frustradas ele pergunta para o preso mais velho se ele se lembra como a criança fez, e ele diz: ela escalou sem corda de proteção.

  • O que isso tem a ver?

 

Quando alguém tem tudo que quer e vive tipo o personagem da Disney, quando cresce na maioria dos casos fica perdido, demora mais para achar o caminho, mas quando não temos corda segurando, quando estamos por nossa conta e risco aprendemos que somos capazes de tudo e que uma oportunidade só é mais do que suficiente. Somos mais animais do que humanos sim, pois nosso instinto de sobrevivência nos faz lutar, e não podemos nos esquecer que foi ele que nos trouxe até aqui, embora hoje as coisas estejam ao contrário, ainda acredito que os mais fortes são os que mais lutam e não os que já nem precisam mais fazer isso porque papai já fez por ele. Então, não precisa nem usar 1% do cérebro pra perceber que você tem muito o que aprender e se inspirar naqueles que desde sempre foram escalar sem corda pelo simples fato de que a sociedade empurrou eles lá. Ah, e sabe quem são esses? Aqueles que vivem bem longe, sabe? Aqueles que são estranhos, sabe? Aquelas que precisam arrumar um macho, sabe?

Sei que todos os favorecidos sabem dos problemas sociais do nosso país, sabem que as porcentagens são tristes e que a violência tem sim os seus porquês, mas queria só dizer uma coisa pra vocês que parece que ainda não ficou muito claro ou não tiveram “tempo” de pensar:

  • Problema social é problema seu, afinal você é a sociedade. So? So, você pode fazer algo com todo o seu dinheiro, acesso ou conhecimento e não somente usar tudo isso para se mostrar inteligente nas conversas entre amigos em mesas de restaurantes caros.

 

Eu fiquei brava sim, e saí do Brasil com a certeza de que Seu Jorge está certo quando canta: temos dois países, um Brasil que é lindo e outro que fede. Qual você faz parte?

  • Nossa, mas que texto agressivo!
  • Agressivo é o preconceito. Cansei dessa merda! Já que é pra tombar, tombei!

Abaixo coloco um presente meu pra vocês (principalmente para os preconceituosos),  clipes da Karol Conka, a mais nova musa Brasileira:

https://www.youtube.com/watch?v=LfL4H0e5-Js

https://www.youtube.com/watch?v=kOSQngZjvdc

Ah, e vale dizer que infelizmente em todos os lugares do mundo existe preconceito, não estou dizendo que o Brasil é o pior lugar do mundo, mas sem dúvida precisa evoluir muito ainda.

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