Respeitar seus momentos pessoais é conhecer melhor sua essência e sua individualidade.

As vezes tenho a impressão de que tenho mil faces. Não me sinto uma pessoa só todos os dias, todas as horas, nem sequer todos os minutos. Sou, literalmente, uma metamorfose ambulante. Desde a adolescência sempre passei por momentos estranhos que costumo chamar de “fase de retiro pessoal”, mas na real isso deve ter um nome bem mais complexo na psicologia e eu fico aqui floreando e criando uma forma mais poética de chamar o meu problema, mas de qualquer forma isso também faz parte de mim,  costumo ter minha leitura pessoal de tudo que vejo, sinto e penso, e é exatamente por isso que hoje decidi levantar o “tapete da minha cabeça” e mostrar pra vocês quanta sujeira eu escondo de vocês, da mesma forma que provavelmente todos vocês fazem comigo.

Me considero uma pessoa super social e agregadora. Adoro conversar, tomar um vinho, rir, ouvir música e comer ao lado de amigos. Sempre fui do tipo que reúne os amigos na própria casa, desde a época que eu e meu irmão éramos adolescentes e juntávamos a galera toda em casa depois do colégio. Sou aquela pessoa que se ofende se faço um jantar em casa e alguém não vem, fico reclamando para o meu marido dizendo que não sou prioridade na vida da pessoa e blá blá blá, mas, como toda boa agregadora, eu não consigo guardar rancor por mais de um minuto. Odeio ter raiva de alguém, sempre prefiro perdoar do que carregar nos meus ombros algo ruim e pesado, e melhor (ou pior, não sei), sou capaz de passar a vida toda convidando alguém que nunca aparece ou cultivando uma amizade que nem sequer existiu. Sou assim meio estranha, tudo que tenho de amável tenho de insuportável, mas sigo tentando sempre mostrar para todos o que tenho de melhor, esse jeito engraçado que as vezes tem ataque de bobeira, essa maneira de falar o que pensa e arrumar briga com 10 pessoas para defender minhas opiniões, essa vontade de ajudar todo mundo e ser presente na vida de quem permitir. Mas acredito que essa pessoa que descrevi vocês já conhecem, né? Mas então o que tenho de tão estranho?

Eu tenho outra face!

Mas calma, não sou duas caras, muito pelo contrário. Quando digo que tenho outra face, me refiro àquele outro lado que muitos filósofos, psicólogos, psicanalistas, romancistas e gente como a gente já descreveram de maneiras distintas, como: masculino e feminino, bom e mau, passivo e ativo, Yin e Yang…enfim. Costumamos chamar de lados pelo fato de que certos comportamentos abafam outros te tornando as vezes o oposto do que geralmente é. No meu caso, além do lado que descrevi acima, tenho outro absurdamente introspectivo, calado e que ama estar isolado de tudo e todos. Eu nunca desrespeitei esse meu lado como alguns costumam fazer. Geralmente quando sinto que chegou minha hora de estar comigo mesma, eu me recolho e passo o tempo que preciso em casa, evitando qualquer contato exterior, e isso pode durar meses. Claro que, como qualquer pessoa, tive que aprender a lidar com meus sentimentos e ir trabalhar mesmo assim, estudar e etc, mas não costuma ser fácil.

Mas você deve estar se perguntando com qual frequência isso acontece?

Depois de quase 30 anos tentando me conhecer melhor, digo que esse sentimento está totalmente conectado com a quantidade de informações novas que recebo, seja mudando de ambiente, aprendendo algo em um curso, me envolvendo em uma discussão, tendo alguma decisão importante para fazer, aprendendo um novo esporte ou simplesmente depois de assistir um filme ou um documentário. Mas foi somente na fase adulta que comecei a respeitar o fato de que tenho um jeito e um tempo diferente das outras pessoas para absorver o que aprendo. Preciso quase sempre pensar mil vezes em algo simples, entender as milhões de interpretação que aquilo pode ter antes de escolher qual será útil pra mim. A melhor forma que encontrei de colocar pra fora esse meu outro lado foi escrevendo, por isso os textos do meu blog pessoal não possuem uma frequência certa, eu basicamente só escrevo quando estou nessa fase meio “longe do mundo” (hoje também escrevo para outros blogs, mas nesses casos tenho agenda para cumprir e pauta definida, por isso não trato tanto de sentimentos e sim de fatos). Escrever me ajuda a colocar as ideias no lugar e entender qual é a minha opinião. Hoje em dia muita gente apenas repete o que escuta por aí, mas eu nunca consegui fazer isso. Tenho um exemplo besta, porém bom, para ilustrar o que estou dizendo: outro dia eu passei horas pensando qual era minha opinião sobre depilação a laser, depois de tanto pensar decidi que precisava falar sobre isso com alguém, ai resolvi encher meu marido com mil argumentos positivos e negativos, questionando tudo que você possa imaginar sobre o assunto para, enfim, entender se concordo ou não. É um método de vida nada prático, diga-se de passagem.

Meu objetivo com esse texto é mostrar para quem tem preconceito com a solidão ou retiros pessoais entender que isso é humano, não se trata de depressão ou doença. Algumas pessoas só conseguem decidir a vida se estão em ação, tentando, errando e correndo de um lado para o outro, mas no meu caso e, provavelmente no caso de outras milhares de pessoas, precisamos de paz, silêncio, solidão, tempo e compreensão. Sei que não é fácil para quem convive com a gente, meu marido, por exemplo, vive me dizendo que preciso ser mais sociável, que estou há uma semana sem ver pessoas. Aliás, ontem ele me disse que o porteiro do nosso prédio perguntou de mim, disse que não me via há mais de uma semana. Quando ele me disse isso fiquei com vergonha de falar, mas mesmo assim disse: saio pela porta de incêndio quando não estou a fim de falar com ele e ultimamente eu não ando nem um pouco afim. É importante dizer que nosso porteiro é muito legal, uma pessoa especial e super gentil, mas isso não importa nesse momento pra mim, afinal, ele é uma pessoa. Um detalhe importante dessa história que contei é que eu não fico em casa, eu saio escondida para não falar com pessoas conhecidas, mas eu saio. Muitas vezes chego no balé, que aliás não falto nunca, ah, aliás não falto nunca em nada, sempre fiz e sempre faço o que tenho que fazer e passo por maluca e antipática nos lugares que frequento, mas não me permito perder o fio da meada e ficar em casa feito uma deprimida, afinal não estou deprimida. Muitas vezes chego no balé cumprimento as pessoas mas quase que naturalmente todos percebem que estou em um dia sem muitas palavras e logo respeitam isso. Jamais sou mal educada, mas em alguns momentos sou o outro eu.

garota-interrompida

Se eu pudesse dar uma dica para quem se sente assim, afinal sou zero qualificada para isso, diria que é preciso se respeitar, se aceitar e encontrar uma ou várias válvulas de escape para essas fases mais escuras (para mim, por exemplo, funcionam o balé, corrida, natação e escrever). Não se entregue a nova banalização chamada depressão, entenda como seu corpo e sua mente funcionam e use isso ao seu favor. Sei que às vezes a vida parece ser chata, que ninguém parece te entender e nada faz sentido, mas quer saber um segredo que todos escondem de você?

Todo mundo sente isso!!!

Quem não questiona a vida não presta atenção nela, e isso na minha opinião é muito mais grave do que parar demais para pensar. Desejo que um dia as pessoas se permitam refletir sem achar que isso é doença, mas que entendam que é preciso voltar para o jogo para usarem aquilo que aprenderam. Alguns acham que estar em uma fase introspectiva é estar infeliz, outros acham que é estar doente, eu acho que é se conectar com você mesmo, e isso não tem nada de infeliz ou doente. Talvez esse sentimento de isolamento passou a fazer parte da sua vida justamente para lhe mostrar que você está desconfortável com os caminhos que está escolhendo para si, e que provavelmente possui uma sensibilidade muito maior do que pensa e pode usá-la, colocá-la para fora, entender quem você realmente é, sem pensar em padrões, dinheiro ou medos, porque quem leva a vida de maneira mais leve transpira verdade em tudo o que faz. Só não demore muito para agir, pois quem muito demora é engolido pela preguiça. Afaste da sua vida aqueles que te puxam para baixo e te fazem achar que é a única perdida no mundo, fique apenas com aqueles que te oferecem respeito, ombro amigo e apoio.

Gosto muito de ouvir música enquanto escrevo e, como minha referência musical veio do meu pai- cantor e compositor de MPB, costumo ouvir um pouco de tudo, mas principalmente músicas brasileiras, e hoje o YouTube estava tocando essa aqui, que tem bem pouco a ver com o texto, mas me dá vontade de rir, de viver e também me faz acelerar o passo na corrida quando toca, afinal, quem não conhece um invejoso (a)? Mesmo que a gente ache que está na merda, tem sempre alguém querendo ser como a gente. Sabem de nada inocentes!

É importante deixar claro aqui que não sou contra terapias ou remédios, desde que o problema seja real e diagnosticado por mais de um médico especialista. Neste texto não me refiro a pessoas doentes, e sim a um comportamento social saudável porém muitas vezes discriminado.

Ah, e querem saber? Vou lá embaixo falar com meu porteiro agora…vejo vocês na próxima fase meditativa, afinal, sem ela eu escrevo bem pior.

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