Respeitar seus momentos pessoais é conhecer melhor sua essência e sua individualidade.

As vezes tenho a impressão de que tenho mil faces. Não me sinto uma pessoa só todos os dias, todas as horas, nem sequer todos os minutos. Sou, literalmente, uma metamorfose ambulante. Desde a adolescência sempre passei por momentos estranhos que costumo chamar de “fase de retiro pessoal”, mas na real isso deve ter um nome bem mais complexo na psicologia e eu fico aqui floreando e criando uma forma mais poética de chamar o meu problema, mas de qualquer forma isso também faz parte de mim,  costumo ter minha leitura pessoal de tudo que vejo, sinto e penso, e é exatamente por isso que hoje decidi levantar o “tapete da minha cabeça” e mostrar pra vocês quanta sujeira eu escondo de vocês, da mesma forma que provavelmente todos vocês fazem comigo.

Me considero uma pessoa super social e agregadora. Adoro conversar, tomar um vinho, rir, ouvir música e comer ao lado de amigos. Sempre fui do tipo que reúne os amigos na própria casa, desde a época que eu e meu irmão éramos adolescentes e juntávamos a galera toda em casa depois do colégio. Sou aquela pessoa que se ofende se faço um jantar em casa e alguém não vem, fico reclamando para o meu marido dizendo que não sou prioridade na vida da pessoa e blá blá blá, mas, como toda boa agregadora, eu não consigo guardar rancor por mais de um minuto. Odeio ter raiva de alguém, sempre prefiro perdoar do que carregar nos meus ombros algo ruim e pesado, e melhor (ou pior, não sei), sou capaz de passar a vida toda convidando alguém que nunca aparece ou cultivando uma amizade que nem sequer existiu. Sou assim meio estranha, tudo que tenho de amável tenho de insuportável, mas sigo tentando sempre mostrar para todos o que tenho de melhor, esse jeito engraçado que as vezes tem ataque de bobeira, essa maneira de falar o que pensa e arrumar briga com 10 pessoas para defender minhas opiniões, essa vontade de ajudar todo mundo e ser presente na vida de quem permitir. Mas acredito que essa pessoa que descrevi vocês já conhecem, né? Mas então o que tenho de tão estranho?

Eu tenho outra face!

Mas calma, não sou duas caras, muito pelo contrário. Quando digo que tenho outra face, me refiro àquele outro lado que muitos filósofos, psicólogos, psicanalistas, romancistas e gente como a gente já descreveram de maneiras distintas, como: masculino e feminino, bom e mau, passivo e ativo, Yin e Yang…enfim. Costumamos chamar de lados pelo fato de que certos comportamentos abafam outros te tornando as vezes o oposto do que geralmente é. No meu caso, além do lado que descrevi acima, tenho outro absurdamente introspectivo, calado e que ama estar isolado de tudo e todos. Eu nunca desrespeitei esse meu lado como alguns costumam fazer. Geralmente quando sinto que chegou minha hora de estar comigo mesma, eu me recolho e passo o tempo que preciso em casa, evitando qualquer contato exterior, e isso pode durar meses. Claro que, como qualquer pessoa, tive que aprender a lidar com meus sentimentos e ir trabalhar mesmo assim, estudar e etc, mas não costuma ser fácil.

Mas você deve estar se perguntando com qual frequência isso acontece?

Depois de quase 30 anos tentando me conhecer melhor, digo que esse sentimento está totalmente conectado com a quantidade de informações novas que recebo, seja mudando de ambiente, aprendendo algo em um curso, me envolvendo em uma discussão, tendo alguma decisão importante para fazer, aprendendo um novo esporte ou simplesmente depois de assistir um filme ou um documentário. Mas foi somente na fase adulta que comecei a respeitar o fato de que tenho um jeito e um tempo diferente das outras pessoas para absorver o que aprendo. Preciso quase sempre pensar mil vezes em algo simples, entender as milhões de interpretação que aquilo pode ter antes de escolher qual será útil pra mim. A melhor forma que encontrei de colocar pra fora esse meu outro lado foi escrevendo, por isso os textos do meu blog pessoal não possuem uma frequência certa, eu basicamente só escrevo quando estou nessa fase meio “longe do mundo” (hoje também escrevo para outros blogs, mas nesses casos tenho agenda para cumprir e pauta definida, por isso não trato tanto de sentimentos e sim de fatos). Escrever me ajuda a colocar as ideias no lugar e entender qual é a minha opinião. Hoje em dia muita gente apenas repete o que escuta por aí, mas eu nunca consegui fazer isso. Tenho um exemplo besta, porém bom, para ilustrar o que estou dizendo: outro dia eu passei horas pensando qual era minha opinião sobre depilação a laser, depois de tanto pensar decidi que precisava falar sobre isso com alguém, ai resolvi encher meu marido com mil argumentos positivos e negativos, questionando tudo que você possa imaginar sobre o assunto para, enfim, entender se concordo ou não. É um método de vida nada prático, diga-se de passagem.

Meu objetivo com esse texto é mostrar para quem tem preconceito com a solidão ou retiros pessoais entender que isso é humano, não se trata de depressão ou doença. Algumas pessoas só conseguem decidir a vida se estão em ação, tentando, errando e correndo de um lado para o outro, mas no meu caso e, provavelmente no caso de outras milhares de pessoas, precisamos de paz, silêncio, solidão, tempo e compreensão. Sei que não é fácil para quem convive com a gente, meu marido, por exemplo, vive me dizendo que preciso ser mais sociável, que estou há uma semana sem ver pessoas. Aliás, ontem ele me disse que o porteiro do nosso prédio perguntou de mim, disse que não me via há mais de uma semana. Quando ele me disse isso fiquei com vergonha de falar, mas mesmo assim disse: saio pela porta de incêndio quando não estou a fim de falar com ele e ultimamente eu não ando nem um pouco afim. É importante dizer que nosso porteiro é muito legal, uma pessoa especial e super gentil, mas isso não importa nesse momento pra mim, afinal, ele é uma pessoa. Um detalhe importante dessa história que contei é que eu não fico em casa, eu saio escondida para não falar com pessoas conhecidas, mas eu saio. Muitas vezes chego no balé, que aliás não falto nunca, ah, aliás não falto nunca em nada, sempre fiz e sempre faço o que tenho que fazer e passo por maluca e antipática nos lugares que frequento, mas não me permito perder o fio da meada e ficar em casa feito uma deprimida, afinal não estou deprimida. Muitas vezes chego no balé cumprimento as pessoas mas quase que naturalmente todos percebem que estou em um dia sem muitas palavras e logo respeitam isso. Jamais sou mal educada, mas em alguns momentos sou o outro eu.

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Se eu pudesse dar uma dica para quem se sente assim, afinal sou zero qualificada para isso, diria que é preciso se respeitar, se aceitar e encontrar uma ou várias válvulas de escape para essas fases mais escuras (para mim, por exemplo, funcionam o balé, corrida, natação e escrever). Não se entregue a nova banalização chamada depressão, entenda como seu corpo e sua mente funcionam e use isso ao seu favor. Sei que às vezes a vida parece ser chata, que ninguém parece te entender e nada faz sentido, mas quer saber um segredo que todos escondem de você?

Todo mundo sente isso!!!

Quem não questiona a vida não presta atenção nela, e isso na minha opinião é muito mais grave do que parar demais para pensar. Desejo que um dia as pessoas se permitam refletir sem achar que isso é doença, mas que entendam que é preciso voltar para o jogo para usarem aquilo que aprenderam. Alguns acham que estar em uma fase introspectiva é estar infeliz, outros acham que é estar doente, eu acho que é se conectar com você mesmo, e isso não tem nada de infeliz ou doente. Talvez esse sentimento de isolamento passou a fazer parte da sua vida justamente para lhe mostrar que você está desconfortável com os caminhos que está escolhendo para si, e que provavelmente possui uma sensibilidade muito maior do que pensa e pode usá-la, colocá-la para fora, entender quem você realmente é, sem pensar em padrões, dinheiro ou medos, porque quem leva a vida de maneira mais leve transpira verdade em tudo o que faz. Só não demore muito para agir, pois quem muito demora é engolido pela preguiça. Afaste da sua vida aqueles que te puxam para baixo e te fazem achar que é a única perdida no mundo, fique apenas com aqueles que te oferecem respeito, ombro amigo e apoio.

Gosto muito de ouvir música enquanto escrevo e, como minha referência musical veio do meu pai- cantor e compositor de MPB, costumo ouvir um pouco de tudo, mas principalmente músicas brasileiras, e hoje o YouTube estava tocando essa aqui, que tem bem pouco a ver com o texto, mas me dá vontade de rir, de viver e também me faz acelerar o passo na corrida quando toca, afinal, quem não conhece um invejoso (a)? Mesmo que a gente ache que está na merda, tem sempre alguém querendo ser como a gente. Sabem de nada inocentes!

É importante deixar claro aqui que não sou contra terapias ou remédios, desde que o problema seja real e diagnosticado por mais de um médico especialista. Neste texto não me refiro a pessoas doentes, e sim a um comportamento social saudável porém muitas vezes discriminado.

Ah, e querem saber? Vou lá embaixo falar com meu porteiro agora…vejo vocês na próxima fase meditativa, afinal, sem ela eu escrevo bem pior.

Um Brasil que é lindo e outro que fede.

(Viu, falei! Depois não vem dizer que não avisei!)

Passar um temporada em São Paulo foi bom. Chegamos com saudade da família, amigos cachorros, gatos e uma vontade daquelas de comer feijão. No carro tudo que eu olhava era lembrança e emoção. Ninguém podia falar mal da minha cidade suja e perigosa. O sentimento era confuso, aliás, tudo que mais tenho dentro de mim é confusão, uma confusão linda e parceira, quase tão clara e fácil de entender quanto as certezas de alguns. Eu estava feliz, genuinamente feliz, como quando estava a caminho do meu primeiro date com aquele que seria meu marido. Meu coração sorria e me obrigava a formular frases estranhas como “Como você conseguiu viver naquela cidade organizada e com arquitetura padronizada por um ano?”. É, o amor não é racional.

O tempo foi passando e em menos de duas semanas feijão ainda era bom, mas já não era mais novidade e o que parecia distante voltou a ser parte de mim. Eu estava em casa como se nunca tivesse saído, mas quando realmente era preciso olhar para dentro percebia que nunca mais seria a mesma.

Precisei voltar para casa para ver o quanto estou outra. Arranquei de dentro de mim o que tinha de mais brasileiro: o medo do amanhã, do inseguro, do mar aberto, o medo de voar, de correr sem parar e de falar o que realmente pensa. Perdi o medo do risco e fiquei sem filtro.

Hoje quero olhar para frente e ver possibilidades ao invés de incertezas. Quero ser aquela que tentou e falhou, aquela que pensou em algo mas mudou de ideia na ultima hora, aquela que achava que era uma coisa e virou outra, aquela que falou o que sentiu não o que tinha que falar. Eu quero ser o que existe de mais humano e imperfeito, assim como os filmes franceses que tanto amo, gosto porque neles tem atrizes com o corpo desproporcional e que quando choram o nariz escorre. Hoje sou feliz com o que tenho, com o que sou e o que vivi. Vejo no espelho meus defeitos e sorrio, aprendi a ama-los. Quando percebo que não sei algo também sorrio, mesmo que tenha vontade de chorar. Nós somos os nossos defeitos, nossos erros, nossos problemas, traumas, marcas e doenças, afinal, se todos fossemos perfeitos como nos filmes da Disney seríamos enfim todos iguais: chatos, brancos, magros e ricos.

Logo nas nossas duas primeiras semanas no Brasil eu disse ao meu marido que eu estava oficialmente enlouquecendo porque eu discordava de tudo que as pessoas me falavam, eu achava tudo um absurdo. Mas é óbvio que a vida não ia facilitar assim, se eu fosse louca tava muito bom, o mundo seria MARA e eu iria me internar, mas NÃO né! A realidade é um prato de merda pra comer no café da manhã, almoço e jantar:

  • As pessoas são preconceituosas pra c***** no Brasil.

 

Eu nunca tinha reparado nisso tão claramente. É claro que eu sempre soube que existia preconceito racial, social, machista e etc, mas nunca de que os preconceituosos ainda são a maioria em pleno século 21. Pessoas cheias de regras e de fórmulas nos perguntam sobre os muçulmanos perigosos, sobre qual o nome da escola que estudamos e geralmente nos aconselham a ficar em Londres. Acho isso engraçado, como alguém pode nos aconselhar a ficar em um lugar que nunca morou? Como alguém que não paga nossas contas avalia a qualidade de onde estudamos? Como alguém que só conhece muçulmanos por foto sabe que são perigosos? As certezas de uma sociedade que enxerga através da tela de uma TV e de Guias de viagens me deprime muito. Mas, então porque eu não soltei o verbo neles? Porque fiquei ouvindo tudo isso com cara de branca de neve? Porque eu literalmente fiquei chocada, mas como isso não é desculpa pra me calar, decidir falar por aqui, afinal, eu me saio muito melhor amontoando letras do que fazendo bafo, baixaria e confusão por ai (uma pena, mas essa é uma limitação minha).

A verdade é que quando sorrimos para algo que não concordamos com o objetivo de evitar uma discussão, estamos na verdade deixando de ser nós mesmos, deixando de propagar aquilo que acreditamos com medo da reação dos outros. Mas quando se diz o que pensa com educação você mostra um outro lado que talvez seja importante para o ensinar, envergonhar ou até mesmo confrontar aquele que diz o que pensa sem medo de te incomodar.

Quantas vezes já escutei pessoas enaltecerem alguém porque se casou com uma pessoa rica ou famosa, ou pior, filho (a) de famoso, quantas vezes escutei nomes de colégios e faculdades que eram mais importantes do que nomes de pessoas, quantas vezes escutei falar de pobres como se eles estivesses em um mundo distante… É, acho que chegou a hora de dizer aquilo que de fato penso, aquilo que de fato sou. Afinal, sou de família humilde e estudei, comi e fiz só o que deu para pagar. E isso tudo é maravilhoso, isso tudo sou eu e me fez assim. Eu conheço e amo muitos pobres desse mundo tão distante, sei como eles vivem, como são fortes, como sabem um pouco de tudo e como são genuínos e verdadeiros.

De uma vez por todas, aquele que é gay, trans, bi e etc só decidiu mudar as coisas na cama, tipo vegetariano que come algumas coisas e evita outras que a maioria prefere, sabe? Eles são como você, somos todos iguais. Os muçulmanos não matam nem mosca, os que matam fazem parte de uma organização criminosa, isso é sobre crime e não sobre religião. Os negros são EXATAMENTE iguais a você (na verdade geralmente são mais atléticos e bonitos, mas tenho certeza que vc consegue lidar com isso!), então vê se evolui porque cabelo ruim não existe, existe cabelo mais forte que o seu, e cor que defini classe social só vai continuar existindo se você continuar egoísta. Mulher é foda pra caralho e tem muita força, portanto desista dessa briga e saiba que se você é machista nós somos loucas, então é bom parar de nos mandar ir pra cozinha quando fica putinho e começar a pedir pinico porque foi uma mulher que te ensinou a cagar no vaso, sem ela você estaria sentando na merda até hoje. Ah, e quem tem menos dinheiro só tem menos dinheiro e mais nada, ta?! É preciso acreditar nessas pessoas e entender que colégios bons, viagens e faculdades formam excelentes profissionais mas que o colégio da vida forma rochas que superam qualquer parada, e isso também tem valor pra caralh*!!

Eu adoro repetir a teoria do filme do Batman, quando ele está preso naquela prisão submersa e fica tentando escalar a parede para fugir, mas nunca consegue, sempre perde o equilíbrio e os outros presos ajudam ele a descer pela corda. Mas ele fica intrigado porque sabe que uma criança, sem força muscular e preparo fisico conseguiu escapar há muitos anos atrás. Então depois de milhares de tentativas frustradas ele pergunta para o preso mais velho se ele se lembra como a criança fez, e ele diz: ela escalou sem corda de proteção.

  • O que isso tem a ver?

 

Quando alguém tem tudo que quer e vive tipo o personagem da Disney, quando cresce na maioria dos casos fica perdido, demora mais para achar o caminho, mas quando não temos corda segurando, quando estamos por nossa conta e risco aprendemos que somos capazes de tudo e que uma oportunidade só é mais do que suficiente. Somos mais animais do que humanos sim, pois nosso instinto de sobrevivência nos faz lutar, e não podemos nos esquecer que foi ele que nos trouxe até aqui, embora hoje as coisas estejam ao contrário, ainda acredito que os mais fortes são os que mais lutam e não os que já nem precisam mais fazer isso porque papai já fez por ele. Então, não precisa nem usar 1% do cérebro pra perceber que você tem muito o que aprender e se inspirar naqueles que desde sempre foram escalar sem corda pelo simples fato de que a sociedade empurrou eles lá. Ah, e sabe quem são esses? Aqueles que vivem bem longe, sabe? Aqueles que são estranhos, sabe? Aquelas que precisam arrumar um macho, sabe?

Sei que todos os favorecidos sabem dos problemas sociais do nosso país, sabem que as porcentagens são tristes e que a violência tem sim os seus porquês, mas queria só dizer uma coisa pra vocês que parece que ainda não ficou muito claro ou não tiveram “tempo” de pensar:

  • Problema social é problema seu, afinal você é a sociedade. So? So, você pode fazer algo com todo o seu dinheiro, acesso ou conhecimento e não somente usar tudo isso para se mostrar inteligente nas conversas entre amigos em mesas de restaurantes caros.

 

Eu fiquei brava sim, e saí do Brasil com a certeza de que Seu Jorge está certo quando canta: temos dois países, um Brasil que é lindo e outro que fede. Qual você faz parte?

  • Nossa, mas que texto agressivo!
  • Agressivo é o preconceito. Cansei dessa merda! Já que é pra tombar, tombei!

Abaixo coloco um presente meu pra vocês (principalmente para os preconceituosos),  clipes da Karol Conka, a mais nova musa Brasileira:

https://www.youtube.com/watch?v=LfL4H0e5-Js

https://www.youtube.com/watch?v=kOSQngZjvdc

Ah, e vale dizer que infelizmente em todos os lugares do mundo existe preconceito, não estou dizendo que o Brasil é o pior lugar do mundo, mas sem dúvida precisa evoluir muito ainda.

A gente esquece que nos últimos 20 ou 30 anos das nossas vidas nós ainda estaremos vivos.

Não é nenhuma novidade pra ninguém que desde que me mudei pra Londres comecei um processo estranho de me redescobrir, e não estou falando de um processo natural, gostoso e poético, estou falando de uma cabeça que gira feito peão, se perde, enlouquece, morre de medo de paralisar pra sempre e depois, finalmente, aprende com essas mudanças e começa a enxergar o mundo de outra maneira. Pois é, nem todo caminho é repleto de folhas, sol e flores, às vezes a gente põe o pé na lama, pisa na merda de cavalo e se arranha no meio do matagal, mas isso não faz com que a história seja menos bonita. Ela pode ser maravilhosa, só que estou falando de um tipo diferente de beleza, aquele tipo cheio de licenças poéticas, que teve tanto erro e desencontro que muitas vezes engana, faz parecer que está dando tudo errado, mas…

 

…é justamente quando está tudo imperfeito e sem sentido que nós aprendemos a descobrir nossa verdadeira essência e valorizar aquilo que no meio do caos nos traz equilíbrio, ou talvez eu possa chamar isso de ’suspiro da paz’. E foi isso que aconteceu comigo há algumas semanas. Eu cheguei à conclusão de que estou entrando na crise dos 30, e olha que ainda falta um ano e meio pra eu fazer parte desse time. Minha crise não tem a ver com estética, saúde ou menos tempo de vida, meu problema é que quero fazer tudo ao mesmo tempo, me sinto mais viva do que nunca, e é claro que tudo isso me traz muita ansiedade e as vezes até me paralisa. Mas foi no meio de tantos planos, medos, vontades e ansiedades que descobri uma mina de ouro.

 

Um senhor Alemão de 73 anos sentado ao meu lado na sala. Ele é cheio de manias e tem o sotaque mais forte que já ouvi na minha vida, embora fale inglês super bem. Ele é o tipo de pessoa que pensa em voz alta e constrange todo mundo enquanto faz isso, do tipo que come a mesma comida todo os dias, que ama ópera e que toca órgão. Mas isso tudo que estou descrevendo é muito fácil de descobrir, pois ele te conta nos 2 primeiros minutos que te conhece. A mina de ouro que me refiro é algo muito maior, algo que ninguém naquela sala, e talvez no mundo, foi capaz de enxergar: estou falando de VIDA. Sim, vida, no sentido mais puro e verdadeiro dessa palavra. Estou falando de alguém que perdeu a esposa no ano passado e neste ano fez 4 viagens internacionais, duas delas para aprender novas línguas, uma para apreciar a música e a outra pra descansar de tantas viagens.

 

Um dia desses ele me contou como era seu dia-a-dia na Alemanha, me disse que gostava de fazer Sudoku vendo TV, de cozinhar sopa, tomar meia garrafa de vinho e comer chocolate todas as noites enquanto olhava pela janela. Depois que disse isso me perguntou se eu achava que quem bebe meia garrafa de vinho por dia era alcoólatra. Eu sorri e disse que não, mas confesso que passei um tempinho pensando nisso depois que ele saiu da mesa, e o que eu realmente acho é que quem bebe meia garrafa de vinho todos os dias pode ser considerado um alcoólatra sim, basta dar um Google e checar, mas se essa pessoa for uma amante da vida com mais de 70 anos, alguém com mais disposição do que todos os jovens na casa dos 20/30/40/50/60 que conheci na minha vida e principalmente alguém que perdeu há poucos dias sua companheira que estava ao seu lado por mais de 50 anos, nesse caso eu acho que ela tem o direito de fazer aquilo que lhe faz sorrir, não importa o que seja.

 

Esse senhor é o segundo idoso incrível que conheci no último ano, a primeira foi uma japonesa de 72 anos que é pintora e muito mais moderna e jovem do que eu. Em meio as minhas crises típicas de uma jovem velha, aprendi que a gente tem mania de esquecer que nos últimos 20 ou 30 anos das nossas vidas nós ainda estaremos vivos. Pois é, desde cedo costumamos planejar apenas descansar nessa fase, mas confundimos descansar com deixar de viver. Aqui nessas bandas do mundo onde eu moro eles me ensinaram que depois dos 70 você pode fazer o que lhe der na telha, desde que realmente faça algo.

 

Esse mesmo senhor me disse, um dia antes de voltar para Alemanha – enquanto me contava sobre sua próxima viagem para Áustria, que ele descansa muito, mas que descansar não é ficar o dia todo sentado na cadeira de balanço, é fazer um esporte, caminhar, conhecer novos lugares e culturas, aprender línguas, criticar os filhos, comer o que gosta e o que lhe faz bem, e no final do dia ter todo o tempo do mundo pra ficar na sua cadeira de balanço. Mesmo que você termine sua vida sozinho, é uma escolha sua permanecer sozinho e parado enquanto você poderia estar voando.

 

É claro que alguns velhinhos  e jovens sofrem muito com a perda dos parceiros, e fica muito fácil aconselhá-los a sacudir a poeira quando estamos de fora apenas palpitando. Se trata de uma vida juntos, hábitos, família e sonhos, são tantos os motivos para sentir uma dor imensa que para quem ama outro alguém fica difícil até imaginar passar por isso. Mas, como diz o ditado popular: se temos uma certeza na vida é que iremos morrer. Pois então, quem está vivo tem duas escolhas, ou espera a morte chegar sentando na poltrona ou continua vivendo. No final, independente do baque, precisamos perceber que devemos continuar vivendo, mesmo que a dor nunca passe. A vida é linda, mas às vezes é bem cretina e insensível, quando você mais precisa dela ela cospe na sua cara a mesma mensagem fria, insensível, manipuladora e abominável porém realista que os nazistas planejavam espalhar pela Reino Unido depois que invadissem o país “keep calm and carry on”. O ataque não deu certo, mas a mensagem que ficou famosa, virou moda e até piada na internet, nos ajuda a entender que mesmo abominando o contexto em que a vida nos coloca não temos escolha, precisamos continuar. Devemos viver a tristeza, nos permitir desistir por um dia, uma semana, um mês ou um ano, mas também devemos permitir que essa tristeza vá embora e fique guardada na caixinha das lembranças.

 

Tudo isso mexeu muito comigo. Me encantei tanto pela vida que parei por uma hora, enquanto o dia se transformava em noite, depois de fazer mil coisas, fazer mil planos e enfrentar meus medos, de pensar nas minhas milhares de obrigações, pude enfim respirar e sorrir. Diante apenas dos meus pensamentos cansativos e do prazer, preferi ceder ao prazer. Nesse momento eu percebi que ser feliz tem mais a ver com a nossa relação com a solidão do que com as coisas e pessoas que conquistamos, e descansar tem mais a ver com encontrar sua paz interior e a sua definição própria e particular do prazer do que com calar o seu corpo e sua mente em um estado vegetativo. Quando aprendemos a lidar com quatro paredes e apenas nossa própria companhia, descobrimos sozinhos quem realmente somos, e a partir daí passamos a entender como podemos nos relacionar com os outros, qual é a nossa verdadeira forma de nos relacionar. Não por acaso os monges meditam sozinhos, pois é a partir da nossa própria consciência que podemos nos acalmar, nos aceitar, encarar os medos, os erros, nos desculparmos, nos renovarmos, nos amarmos e sermos felizes. Só depende de nós.

 

Quem tem medo da solidão passará a vida inteira pensando nela. A pior maneira de evitar aquilo que nos incomoda é fugir disso.

 

Desta vez devo minha reflexão aos meus amigos experientes, que diferente dos mais jovens que em sua maioria (incluindo eu) apenas reclamam, falam de beleza física, moda e contam vantagens, eles me falaram sobre a vida, o amor, o prazer e a realidade de como será bom envelhecer. O quanto antes pararmos de ter preconceito com os mais velhos e achar que eles não deveriam andar na rua sozinhos, fazer esforço ou beber e comer o que querem, mais rápido conseguiremos enxergar a beleza e a vivacidade que eles tem para nos mostrar. Os mestres estão soltos por aí, prontos para nos ensinar, mas estão sendo tratados como crianças incapazes e dependentes, quando na verdade são eles que não precisam do Google para sobreviver, ou melhor, para viver.

 

A partir de hoje faço apologia à vida, seja qual fase dela que eu estiver. Não precisamos ter pressa ou ansiedade para colocarmos nossos planos em prática, para viajar o mundo ou para ganhar dinheiro pois em nossas vidas caberá tudo que queremos fazer, desde que não machuquemos nosso corpo e mente. A calma é uma dádiva das almas maduras, e eu tenho uma invejinha branca deles por isso, e essa é a moda que eu mais quero copiar. Que de hoje em diante eu possa ter calma e viver ao invés de correr.

 

Crise dos 30 existe para quem tem só mais 30 pela frente, eu já me curei disso, terei mais 60 anos para viver.

Coloco aqui um trecho bem legar de uma entrevista bem interessante com o Ricardo Darín (ator Argentino) que ele fala sobre solidão: https://www.youtube.com/watch?v=J1SBc18oCb8

O que você diria se tivesse que escolher algo para dizer ao mundo inteiro?

Pensei muito depois que vi o discurso do Leonardo Di Caprio na cerimonia do Oscar. Eu, como muitas outras pessoas, achei que ele foi genial. Sim, sou esse tipo de pessoa chata que acha que sempre devemos usar os momentos que estamos com a palavra, mesmo que sejam rápidos e com pouca plateia, para deixar uma mensagem maior do que um simples “obrigada”, acho que poucos momentos temos a atenção de mais do que cinco pessoas, sendo assim, temos que saber priorizar as coisas importantes e dizê-las, sem medo ou vergonha.

 

Se pensar verá que existem vários assuntos importantes como racismo, casamento gay, desigualdade social, saúde, educação, doenças raras, reciclagem, maltrato aos animais, imigração, guerra, corrupção…eu poderia encher um livro inteiro de prioridades, mas convenhamos, nada disso poderá ser discutido se acabarmos com o mundo em que vivemos. Por esse motivo achei que o discurso do vencedor do Oscar de Melhor Ator em 2016 foi muito bom e trouxe à tona uma verdadeira prioridade.

– Mas será que eu diria a mesma coisa?

 

Eu não sei. Aliás, tenho a impressão de que nunca consigo ter uma opinião clara sobre nada, pois sempre que estou discutindo com alguém sobre algo polêmico acabo me perdendo, pois encontro milhões de lados, justificativas e problemas aparentemente gigantescos que estão ligados à outros milhões de problemas e, claro, no final eu continuo confusa, só que agora com mais mil novos motivos para isso. Foi exatamente por isso que depois de pensar muito sobre a situação do nosso planeta e tudo que o Leonardo Di Caprio disse, acabei passando por milhares de outros problemas conectados a esse e finalmente entendi que algo que aparentemente está bem distante deste assunto tem simplesmente tudo a ver com ele, algo que  está na porta de milhares de igrejas, em letras de rappers famosos, em filmes e até mesmo no nosso dia-a-dia, resumindo, estou falando de:

Irmandade.

 

Pois é, é essa palavra velha e fora de moda que à primeira vista não parece importante, que eu escolheria pedir ao mundo. O motivo da minha escolha é muito simples. Minha mãe sempre me disse desde muito cedo com tanta naturalidade que nunca pude perceber como esse conselho era valioso e mudaria minha relação com o mundo:

“Não faça com o próximo aquilo que não gostaria que fizessem com você.”

 

Sim, isso é bem clichê, mas é uma pena que apenas pouquíssimas pessoas coloquem de fato em prática, basta perguntar-se: Você gostaria de ser bombardeado? De ser impedido de entrar em algum país? De ser chamado de terrorista injustamente? De ser tratado como um sexo inferior? De ser caçado dentro da sua própria casa apenas por esporte? De servir para teste de remédios e cosméticos? De ser explorado e mal pago? De ser impedido de estudar? De ser julgado, isolado e duramente criticado por ter cometido um erro? De ser enganado e roubado? De ser traído? De ser julgado inferior pela sua cor? De passar fome? De carregar alguém nas suas costas e mais milhões de cargas sem poder descansar um dia se quer? De perder sua pele ainda vivo para alguém mais importante que você vendê-la? De ficar atrás das grades para alguém te fotografar e saber que você existe de verdade? De comer cocô porque poluíram sua comida?

– Acho que não, né?

 

Isso e muitas outras coisas piores estão acontecendo agora e quem está sofrendo são nada menos do que os seus irmãos. Sim, aqueles que respiram como você, que vivem no mesmo mundo que você e são tão donos disso tudo como você, independente de serem humanos, plantas ou animais.

 

Esses dias um amigo meu disse que rato aqui em Londres é uma praga. Sem nem pensar repeti a frase que meu marido sempre diz: Rato é um animal, praga são os humanos que estão simplesmente por toda parte matando tudo que vêem pela frente. É claro que os humanos fazem coisas boas também, preservam, curam, ajudam e alguns até tentam consertar aquilo que outros estão destruindo, mas o lado destrutivo tem muito mais força e infelizmente está conseguindo acabar com os animais, plantas, rios, ar e até mesmo com outros humanos. Mais uma vez abusando dos clichês, o que será que vamos comer quando tudo já estiver morto? Dinheiro? Ou vamos comer os mais pobres? Sendo assim, a próxima vez que vir um rato, antes de gritar olhe bem para os olhos dele e peça desculpas por ter deixado ele sem casa e fazê-lo viver no esgoto. E se mesmo assim você ainda tiver nojo e medo de pegar uma doença, pense que ele sente o mesmo por você, mas o medo dele não é de morrer de leptospirose em uma cama de hospital com a família ao lado, é de ser assinado a pauladas e saber que isso é permitido, qualquer um pode fazer e ninguém irá preso por isso, é até considerado um ato positivo, afinal, “menos um no nosso mundo!”.

 

– É Leo, precisamos fazer alguma coisa por nós e pelos nossos irmãos. Eu não gosto apenas de falar, sou como você, gosto de agir. Se o mundo tá na merda, vamos enfiar a mão e tirá-lo de lá, não adianta esperarmos o famoso “alguém” fazer alguma coisa, pois o “alguém” somos nós.

 

Por mais difícil que seja consertar as coisas no estágio em que estamos, na minha opinião a solução para todos os problemas complexos é muito simples e podemos começar em qualquer hora e lugar. Para muitos trata-se de algo efêmero, pequeno, sem importância, mas a verdade é que tudo que é realmente grandioso é também muito simples:

– Defenda seus irmãos, tanto os de quatro patas, os de duas, os de mais de seis, os que não se movem e estão literalmente plantados, os que voam mas foram presos, os que moram longe e estão sendo injustiçados…todos eles. Esteja sempre do mesmo lado daqueles que ainda não foram corrompidos pelo dinheiro. Dinheiro é bom e todo mundo quer, mas não dá pra tê-lo a qualquer custo, uma vida vale mais do que milhões. Não se omita nunca, se agir ao invés de filmar, se falar ao invés de chorar, se pensar ou invés de repudiar o próximo, verá como o mundo mudará. Acredite que uma boa ação gera muitas outras e até ensina quem está assistindo.

 

Sei que alguns pensam que esse meu discurso é um pouco hippie chato, mas tenho certeza que muitos outros pensam como eu. Não gosto de dar nome às coisas, não sou hippie, mas sou uma cosmopolita que ama a natureza e abraçar árvores; não sou budista, mas medito enquanto corro, tomo banho e escrevo; não sou vegetariana mas me preocupo com os maus tratos em matadouros e desperdício de comida, procuro não desperdiçar, comer menos carne possível e sempre saber a procedência do que compro. É claro que eu gostaria de ter feito e fazer muito mais pelo mundo, como diz Kurt Cobain “I wish I was like you, easily amused, find my nest of salt. Everything is my fault, I’ll take all the blame, aqua seafoam shame…”, é claro que queria ser como os outros, queria me contentar apenas com a minha felicidade e felicidade da minha família, mas não dá, enquanto houver uma vida infeliz, explorada ou injustiçada, não conseguirei deixar de me sentir culpada, não sou do tipo que se refere aos problemas como “problema deles” e infelizmente meu sono tranquilo é prejudicado por isso.

 

Sempre discuto com amigos e família se é justo colocar mais filhos no mundo sabendo que é certo que eles irão sofrer as consequências do que fizemos. Eu sempre defendo que ter um filho não é trazer alguém para o sofrimento e sim fortalecer nosso exército da salvação, afinal, a solução de todos os problema está na educação e nas nossas atitudes. Se quer ter filho, ao menos faça com que ele aprenda a consertar o que destruímos.

 

E ai, topa ser nosso irmão? Acho que chegou a hora de mudarmos isso juntos…

“Come as you are, as you were,

As I want you to be

As a friend, as a friend, as an old enemy

Take your time, hurry up

The choice is yours, don’t be late”

(Mais uma vez citando Nirvana)

Neste novo ano desejo apenas que meus planos sejam apenas planos, que não sejam transformados em metas.

Enfim de volta. Depois de passar 30 dias de férias e metade deles no Brasil matando as saudades de tudo e todos, cá estou eu, novamente em Londres, e ela está ainda mais fria, escura e mais do que nunca representa o oposto do Brasil. Desde que voltei, todos os dias quando acordo sinto ainda mais sono quando olho pela janela e percebemos que preciso de muita coragem para encarar o que vejo lá fora. É claro que minhas dificuldade por aqui são muito mais complexas do que a temperatura ou a claridade, mas essa dupla ajuda bastante a piorar as coisas.

 

O ano acabou, outro começou, mas algumas dúvidas e sentimentos permanecem. Invejo muito aqueles que conseguem deixar todos os problemas no passado simplesmente porque alguém inventou que em 365 dias tudo se renova. Seria ingenuidade da minha parte proclamar aqui “ano novo, vida nova!”. Mas, devo dizer que como a maioria faz nessa época do ano, eu também visualizei minha retrospectiva do ano anterior e pensei em como eu gostaria que fosse esse novo ano. E quer saber o que acho mas curioso em fazer isso? É que tenho a sensação de que sempre que juntamos todas as experiências de um ano inteiro em um único montante, em uma rápida retrospectiva mental, elas parecem fazer muito mais sentido do que quando pensamos isoladamente em cada uma delas, ou melhor, do que quando de fato vivemos cada uma delas, dia após dia. As vezes reclamamos de acordar cedo, trabalhar, estudar e etc, mas no final, quando nos comparamos do início ao final do ano, percebemos o quanto evoluímos, mesmo que para isso tivemos que reclamar todos os 365 dias.

 

Durante minha meditação sobre o que desejo para este novo ano que chegou me notei um pouco relutante, um pouco seca comigo mesma. Parecia que eu não queria esperar nada desse novo ano. Nunca tinha me sentido assim antes. Foi como se eu não desejasse nada. Mas quanto mais estranha eu me sentia, mais tentava me obrigar a fazer planos, mas a única coisa que eu consegui desejar verdadeiramente foi:

  • Neste novo ano meus planos serão só planos, não serão transformados em metas.

 

O fato é que desde que eu tinha 15 anos e trabalhava em uma loja de shopping, passei a ser a rainha das metas. Fazia isso porque uma vez participei de um treinamento da loja que eu trabalhava em que disseram que para crescer profissionalmente precisamos saber aonde queremos chegar e por isso precisamos sempre traçar metas para conquistar nossos objetivos. Desde esse dia passei a sempre saber aonde eu queria chegar, me punir quando não atingia as metas e, pior de tudo, me pressionar toda santa feira para dar um passo para frente, da segunda até a sexta. Infelizmente não posso assinar essa história que acabei de contar apenas com o meu nome, pois conheço muitas pessoas com a mesmíssima história. Nós nos apegamos tanto aos planos que naturalmente, mesmo sem ter tido a palestra sobre o assunto como eu tive, fazemos deles metas e nos tornamos obcecados por eles e muitas vezes até ficamos doentes. É muito mais comum do que parece escutar pessoas preocupados dizendo que ainda não compraram suas casas, não se casaram e não foram promovidos a gerentes e já estão com quase trinta anos…Mas esse ano me peguei odiando esse discurso, me peguei querendo distância de pessoas que proclamam esse tipo de reclamação. Decidi que para minha vida quero algo mais honesto, mais justo.

  • Ao invés de pensar no que ainda não tenho, no que desejo ter ou no que eu deveria ter, decidi que irei apenas pensar em tudo que já vivi e construi.

 

No meu caso, eu trabalhei 10 anos com publicidade, morei sozinha, me casei, comecei a correr, comecei a escrever com mais frequência, adotei uma coelha, mudei de país, fiz milhares de amigos pelo mundo, viajei, melhorei como cozinheira, aprendi a limpar meu banheiro sem rodo, sofri quando minha coelha e meus cachorros morreram, vi umas 10 séries e estou esperando sair novas temporadas de 5 delas…enfim, o fato é que eu não comprei um apartamento, não fiz festa de casamento, não virei diretora de atendimento em uma agência de propaganda e nem sei quando tudo isso vai acontecer, se é que vai acontecer um dia, mas e daí?

 

Quando paramos de pensar no que não conseguimos, não temos ou não alcançamos e passamos a pensamos em tudo que já vivemos, construímos e aprendemos, paramos de nos fazer de vítimas da vida e mudamos nossas perspectivas, passamos a agradecer mais, mesmo que o ano tenha sido difícil, duro e injusto conosco acabamos entendendo que cada acontecimento direta ou indiretamente colaborou para sermos quem nos tornamos e, claro, nos valorizamos mais pois finalmente entendemos que quanto mais duro, mais sofrido, também mais proveitoso foi. É como diz uma frase grosseira, porém inteligentíssima que decorei de um dos meus filmes favoritos: “If you wanna get to the castle, you need swim in the moat”. Pois bem, cá estou eu, com meus últimos anos repletos de “moat”, mas também com a alma mais leve, o coração maior e a sensação de ser uma eterna aluna da vida, cheia de energia e absolutamente cheia de dúvidas.

 

Pois é, poderia dizer que meu novo sobrenome é dúvida. Reuno dentro de mim absolutamente todas as dúvidas que um ser humano poderia reunir. Acho até que devo estar pra entrar no livro dos recordes como a pessoa com mais dúvidas no mundo. Mas quer saber? Hoje considero minha personalidade em forma de “question mark” uma benção, tenho até percebido que naturalmente me afastei de todos aqueles amigos que tem certeza de tudo. Hoje minha piada favorita é uma que eu mesma inventei:

Quer fazer alguém ter depressão? Dê dinheiro, passagem, moradia e peça pra ela escolher o que quer fazer da vida no país que ela quiser.

 

Se pra você isso parece piada de burguês, acredite, essa frase tem um belo fundo de verdade. Em um mundo onde crescemos sem grandes opções, naturalmente nos tornamos inexperientes nessa historia de ser livre e deixar a vida nos guiar. Sinto informá-los que a liberdade assusta e muitas vezes enlouquece. A verdade é que só existe um caminho para ser livre: fazer amizade com as suas dúvidas. Quanto mais tranquilo estiver ao lado delas, mais livre será.

 

Leva tempo e muito suor para pegarmos o jeito desse jogo de liberdade. Quando desconstruímos nossa base, nossas referências, quando saímos da nossa zona de conforto e nos colocamos em situações frágeis, somos obrigados, sem aviso prévio, e-mail ou qualquer tipo de notificação, a nos reinventar. É claro que, na maioria das vezes, nossa reação não é positiva, nós nos deprimimos ou sentimos raiva das nossas escolhas, do nosso destino ou seja lá o que foi que nos colocou nessa situação caótica e totalmente inesperada. Tudo isso nos faz criar uma redoma de insegurança em volta de nós e passamos a desfrutar das dores e delícias de viver o tão famoso “Choque de Realidade”. Mas muitos de nós, como eu por exemplo, ficamos presos no passado, mas não porque ele era perfeito, feliz e sem problemas, mas porque ele era mais ‘seguro’ do que agora. É muito difícil receber uma mensagem direta da vida, gritando na sua frente a frase assustadora, porém realista:

  • Você não controla nada!

 

Normalmente retrucamos bravos, defendendo e acreditando na novela que nós mesmos criamos. Achamos que podemos planejar tudo, do casamento à aposentadoria. Dificilmente temos coragem de parar a bola e recomeçar do zero, pois quando a estabilidade entra em jogo nós nos aterrorizamos. Basta olhar para o lado ou para si próprio para perceber isso, muitas pessoas continuam completamente infelizes no trabalho, beirando a depressão, apenas porque já caminharam tanto até chegar lá, ou porque a empresa é grande, boa ou famosa. Poucas pessoas assumem o risco de fazer o que realmente querem. É claro que entendo que tudo isso é difícil quando é casado, tem filhos e etc, mas na verdade é ilusão achar que ficar lá, parado no mesmo lugar será seguro. Parece que estamos esperando a vida tomar uma atitude drástica e nos mostrar, seja nos colocando sozinhos em um país estranho e escuro, nos dando uma doença grave para encarar de frente ou até mesmo levando a vida de algum parente ou amigo próximo. Sei que parece muito clichê e repetitivo dizer isso, mas de fato passaremos a sofrer bem menos quando aprendermos que nunca estamos seguros. Pessoas morrem todos os dias e outras evitam a morte, isso faz parte do jogo. Precisamos apenas a fazer aquilo que sentimos, precisamos apenas andar pra frente sem medo de derrapar, pois ficar parado não é uma opção segura. De que adianta ter medo de perder o chão se na verdade ele nem existe?

 

Não vou ser hipócrita de dizer que é fácil mudar de vida, de profissão, de namorado, marido, cidade, país…mudar qualquer coisa requer coragem, paciência e dedicação. Muitas vezes sofremos quando acordamos e olhamos pela janela e vimos dias frios e escuros, e sofremos mais ainda quando percebemos que talvez será por muito tempo assim, mas quer saber o que faço quando me sinto assim? Eu coloco uma música que me faz bem no ultimo volume (a ponto de todos à minha volta escutarem, mesmo eu estando de fone de ouvido), agradeço por mais esse dia e penso “Qual o pior que pode acontecer? Morrer? Pois então que o último dia seja o melhor deles!”. Não, eu não acordo mais feliz no dia seguinte, nem sequer mais confiante, mas de alguma forma eu me encho de combustível quando faço esse ritual, ou quando escrevo, ou quando penso em tudo que ganhei de presente depois que abri mão da minha zona de conforto e aceitei as mudanças que a vida tinha para me oferecer.

 

A verdade é que não existe segredo para ser feliz todos os dias, existe apenas nosso equilíbrio, que nos mostra sempre os dois lados. Mas se por acaso tudo parecer ruim demais pra se equilibrar, repita para você mesmo as palavras de Lenine:

“…você sofre igual todo mundo, mas apenas não se afunde em um sofrimento infindo. Vá até o fundo de um poço de dor profundo, mas volte depois sorrindo. Em tempos de tempestades e diversas adversidades, equiíbre-se e requebre, seja tal qual a vara, envergue-se mas não quebre. Quando ja não da pé, não se revolte e se queixe, volte firme pro seu eixo. Em noites de festa, erga seu copo e celebre os bons momentos da vida, mas também os maus tempos da lida. Envergue sempre, mas não quebre!!”

 

Quando me mudei para Londres estava empolgada com as milhares de oportunidades que a cidade me traria, mas hoje percebo que esse processo de mudança foi de fato positivo, mas não exatamente como eu imaginava, aliás nada na minha vida foi como eu imaginava, mas quando olho para trás percebo que foi tudo tão bom que eu nem seria capaz de imaginar, e se alguém me contasse, fizesse uma previsão do futuro, eu provavelmente não acreditaria em nada e pediria meu dinheiro de volta. Não, não está sendo e nem foi fácil, mas isso não significa que não esteja sendo bom. Estou vivendo 10 anos em um, aprendendo muito, não tanto profissionalmente como planejei mas muito pessoalmente. Sem essa experiência eu nunca teria descoberto esse lado sensível, inseguro e até mesmo medroso da minha personalidade, que me fez me despir das minhas teorias sobre ser feliz e me colocou diante de uma nova Johana, ainda um pouco confusa sobre os planos para o futuro, mas exatamente pelo fato de estar confusa estou mais livre. Sempre quis entender na prática o que o Renato Russo queria dizer quando cantava “…ser tão criança a ponto de saber tudo”. Hoje tudo faz sentido, quando somos crianças (de idade ou de alma) temos certeza do que queremos ser quando crescer, dos nomes dos filhos, onde queremos morar e etc, mas quando crescemos a vida nos mostra que o melhor que ela pode nos oferecer é a possibilidade de podermos recriá-la mil vezes, de nos perdermos entre nossas milhões de vontades e, principalmente, de não sabermos que existem tantas possibilidades que quanto mais aprendemos mais percebemos que ainda não sabemos nada. Não tem nada de errado em não saber o que quer fazer, aonde quer morar ou até mesmo quem você é, esse é apenas um processo natural da maturidade, que na minha opinião não precisa ser resolvido ou decifrado, precisa apenas ser aceito, respeitado e vivido, pois na hora certa saberemos o que realmente queremos.

 

Pois então eu começo meu 2016 contra o fluxo. Não espero nada dele, apenas peço que me surpreenda e, ao invés de listar minhas metas e tarefas, listo aqui meus agradecimentos por tudo que ja vivi:

Sou grata por não ter uma casa própria, um carro e não ser diretora em uma agência de propaganda, pois a ausência de tudo isso me mostrou que eu só tenho na minha vida o que eu realmente preciso e o que eu realmente quero, sou grata por todas as apunhaladas que levei nas costas que me fizeram mais atenta, pelas desilusões que me fizeram mais realista, pelos “nãos” que me fizeram mais insistente, pelos exageros que me fizeram ser mais calma, pelos erros que me deram experiência, pelas dúvidas que me deram equilíbrio, pela falta de dinheiro que me fez mais consciente, pelas críticas que me fizeram mais mulher, pelas falsas amizades que me fizeram menos Poliana, agradeço tudo que não me matou, apenas me tornou mais forte, mais experiente.

(aqui coloco a genialidade do Lenine em forma de letra e som: https://www.youtube.com/watch?v=BH9iFQYwrjA)

O que é mais importante, ser feliz fazendo o que ama ou correr atrás de dinheiro?

Desde criança sempre tive um tipo de raciocínio que batizei de “raciocínio cascata”. O nome é engraçado, mas não poderia ser mais perfeito. Sempre quando penso em qualquer coisa, pode ser simples ou complexa, me vem em seguida o “raciocínio cascata”, por exemplo: “Nossa, que dia lindo! > Preciso sair para correr e aproveitar o dia! > Nossa, estou atrasada, preciso ir logo, já, já o sol vai embora! > Nossa por que todos os dias não são como esse? > Porque não vou morar na Bahia de vez? > Ah, é porque não tenho dinheiro. > Preciso ganhar dinheiro pra depois me aposentar lá! > Mas la é perigoso, acho melhor Miami! > Nossa, mas é caro hein, preciso trabalhar muito! > Acho melhor eu voltar pra casa e pensar em algo que me dê dinheiro”. Outro exemplo: “Nossa, que linda essa foto de Fernando de Noronha! > Como moramos tanto tempo no Brasil e nunca fomos para lá? > Precisamos ir pra lá! > Já sei, quando fomos visitar nossa família tiramos uma semana a mais de férias e vamos pra lá!> mas precisamos de dinheiro! > Preciso trabalhar muito até lá”.

Exageros à parte nos exemplos, eu juro que penso assim. Pode ser qualquer assunto, no final sempre chego em duas palavras: Dinheiro e Trabalho.

 

Agora pensem como deve ser fácil pra mim largar meu trabalho e ficar aqui em Londres, cheia de tempo, andando pela rua e, para onde olho, tudo é cobrado em libra (leia-se R$ 6.20 para cada libra gasta)…É, as vezes preciso ler meus próprios textos para me convencer do meu blá blá blá de que estou passando por uma mudança, estou aprendendo a viver com menos, estou me acostumando a um vida típica aqui na Europa, estou me desapegando dos exageros brasileiros, estou amando, ufa, amando, você nem imagina o quanto…e quando eu não me convenço sozinha, apelo para as universitárias nesse assunto, assim como eu, minhas amigas brasileiras que estão aqui da mesma maneira que eu. O fato é que no final, por mim mesma ou por elas, sempre sou convencida de que de fato sou feliz hoje, de fato preciso de bem menos, de fato trabalho e dinheiro não são a única necessidade da minha vida e, por fim, de que de fato minha missão nessa fase da vida não tem nada a ver com trabalho, dinheiro ou carreira, tem a ver com mudança de comportamento, com crescer, com me preparar para entender melhor a vida, expandir e, por fim, ter conhecimento suficiente da vida para…Ter sucesso na empresa que pretendo abrir? Para ficar rica? Para me candidatar à presidência do Brasil? Não! Para ensinar aos meus futuros filhos o que, por experiência própria, acredito ser importante na vida, pois esse sim é o meu melhor plano de vida: Ter filhos. (Não agora, rs, mas em alguns anos).

 

Acho que ja deu pra perceber que não sou uma boa pessoa para dizer “desapeguem do dinheiro, ele não importa!”, mas também não sou uma boa pessoa para dizer “trabalhem, pois dinheiro compra tudo nessa vida!”. Ao contrário do que deve estar pensando depois de ler essa frase, eu não sou perfeita e não tenho o equilíbrio entre as duas coisas, eu sou apenas alguém no caminho, entre esses dois mundos.

 

Quem me conhece sabe que amo moda. Ops, para tudo! Claro que eu amo moda, mas eu sempre critico quando alguém diz que ama moda mas está querendo dizer que ama comprar, ou seja, não ama moda e sim consumir moda. Pois é, enfim, o fato é que eu amo os dois! Além disso, amo viajar e jantar fora. Fico até sem ar, ansiosa de pensar qual o próximo lugar na Europa que quero visitar, às vezes me pego gritando nome de países e cidades mais alto que meu marido de tanta empolgação em pensar na viagem. Mas por outro lado, sou uma pessoa que da atenção aos detalhes, que não precisa de muito para ter o dia mais feliz do ano, que é capaz de doar a roupa do corpo, mesmo que tenha sido cara ou que seja minha preferida, se vir alguma criança passando frio. Enfim, eu como todos vocês, tenho os dois lados, sou meu próprio oposto, não faço nenhum sentido e, pior, fico procurando sentido e rótulos para mim mesma: “Mas amor, eu sou uma pessoa fútil ou desapegada materialmente?”. O fato é que eu e todo mundo temos que jogar um jogo duro e quem me conhece sabe que odeio jogos, seja de cartas, esportes, dominó ou o jogo da vida. Odeio jogos que alguém ganha e outro alguém perde. Mas questões psicológicas à parte, todos nós sabemos que não dá pra viver no mundo de Poliana depois que já temos uma vida de adultos, precisamos entrar no ritmo, nos sustentar, construir do zero o que planejamos, e claro, para isso precisamos jogar, gostando ou não. Mas é nessa hora que paramos e pensamos, questionamos, avaliamos os esforços, buscamos nossa essência e nos deparamos com a pergunta:

O que é mais importante, ser feliz fazendo o que ama ou correr atrás de dinheiro para realizar nossos sonhos?

 

Não sou a dona da verdade, aliás, neste contexto que me coloco, escrevendo sobre meus pensamentos, me torno ainda mais frágil do que qualquer pessoa, afinal, abro meu coração, minhas inseguranças e minhas certezas para o mundo, deixando que entrem na minha vida sem bater e pedir licença e concordem comigo ou discordem totalmente. Mas, quem me conhece sabe que acredito que a única certeza que temos é que estamos aqui e, portanto, devemos fazer valer nossa estadia nesse mundo. Sendo assim, devemos nos posicionar com relação à tudo, pois todo e qualquer assunto é assunto nosso, tem a ver com a gente e nós temos opinião. Me dê um tiro na testa, mas não deixe de dar sua opinião. Pessoas sem opinião são apenas ignorantes, mas pessoas que omitem sua opinião são covardes. Sendo assim, perco os amigos, a família, perco o trabalho, mas não minto sobre o que penso. Nesse caso, voltando ao tema da vez, por sorte o que penso é bastante conveniente e agrada à gregos e troianos:

As duas coisas são importantes: seja feliz e tenha dinheiro!

 

Mas calma! Nada é tão simples assim. Devo dizer que a geração Y, geração da qual pertenço, na minha opinião, pensa da forma correta mas escolheu o caminho errado para conquistar a tão procurada felicidade. Para quem não sabe, a geração Y é conhecida como a geração que trabalha com o que ama. Acho essa ideia incrível e estou indo por esse caminho também, mas o que discordo é que não se deve colocar apenas no trabalho o peso de ser feliz. Basta pensar de fato no assunto: ninguém é feliz todos os dias no trabalho, mesmo fazendo o que ama, até quem alimenta pandas bebês órfãos deve reclamar do trabalho para esposa (ou marido) quando chega em casa. Acho que devemos sim procurar um trabalho que nos faça feliz, mas até ai dizer que ser feliz é trabalhar com o que ama? É muito triste relacionarmos uma vida feliz ao nosso instrumento de “ganhar dinheiro”. Ser feliz é muito, mas muito mais do que isso. Tem muito mais a ver com o que você faz antes e depois do trabalho do que somente com o momento em que você está lá. Buscar a felicidade é como reger uma orquestra, e o trabalho são só os instrumentos de sopro, além deles tem muito mais, tem a família, os filhos, os animais, a natureza, a pobreza na África, um curso de culinária, correr mais 5km do que de costume, aprender uma nova língua, fazer uma surpresa para alguém que ama, enfim, o mundo é tão grande, como podemos nos limitar à algo tão pequeno? Será que a gente não percebe que o Google é só a primeira empresa a jogar o jogo de felicidade no trabalho que a geração Y busca? Se essa é a tendência, as empresas provavelmente vão se adequar a isso, mas pobre da geração Z, que irá começar a trabalhar e terá o trabalho mais legal e perfeito do mundo, mas descobrirá que não era esse o problema desde o inicio, vai descobrir que a geração Y fez um resumo mal feito da felicidade, lutou por uma opinião e não por uma verdade.

Mas, calma ai, se não é o trabalho que vai resolver, como a gente faz pra ser feliz?

 

A gente segue tentando ser feliz nas 8 horas por dia em que estamos trabalho, assim como a geração Y está fazendo, mas se por acaso não tivermos um dia bom, ou odiarmos nosso chefe, se cansarmos do cliente ou simplesmente da profissão, devemos nos lembrar de que já iremos pra casa e ao invés de reclamar, chorar ou dormir porque estamos cansados, que tal irmos viver a parte feliz do dia?

Não deixe, jamais, a felicidade para amanhã ou para outra pessoa resolver por você. Se ela é sua, assuma a responsabilidade e vá trás dela todo santo dia.

Semana passada tive um exercício simples na aula de inglês, o professor escrevia um sentimento na lousa e nós tínhamos que defini-lo. Foi nessa aula que ouvi de uma colega francesa a resposta mais óbvia do mundo e, lamentavelmente, eu me surpreendi com a definição dela para a felicidade:

“Happiness is having a baby in your arms.”

 

Só isso. Ela não falou mais nada. Ela não colocou que para isso precisava ser uma enfermeira chefe bem sucedida do melhor hospital do país, ou o médico que fez o parto e estudou 10 anos antes disso, ou uma mãe que tem uma carreira brilhante e que está vivendo o dia tão esperado de sua vida…Não! É qualquer um de nós, em qualquer momento da vida, segurando um pequeno bebê. Talvez esse bebê nem seja humano, pode ser um cachorrinho, ou um gatinho. Simplesmente não tem regras e nem metas, a felicidade é simples assim.

E você, ja foi feliz hoje?

 

Pensando bem, eu até mudei de ideia: Trabalho é menos do que os instrumentos de sopro em uma orquestra, é apenas uma flauta sozinha. É claro que uma flauta fica linda em uma orquestra quando é bem tocada, mas existe muito mais do que ela para formar uma linda música. Não acredita em mim? Então escute você mesmo se o conjunto da obra tem mais força do que a flauta sozinha. Não precisa entender a letra ou entender de música, precisa apenas entender da vida para se emocionar ouvindo uma orquestra tocar:

https://www.youtube.com/watch?v=GD3VsesSBsw

 

Chore porque foi lindo, porque foi vivido, porque foi tudo junto e tudo tão importante quanto o trabalho e o dinheiro. Chore de alegria quando acabar a música e quando acabar a vida, porque juntando tudo ficou tão lindo e emocionante no final e não porque ganhou dinheiro, mas porque viveu e, btw, ganhou algum dinheiro.

O que você chama de casa?

Ando tendo uma rotina quite diferente aqui em Londres. Ultimamente minha vida se resume em apenas uma coisa: falar muito, escrever muito e ler muito inglês. Passo horas do meu dia estudando e as outras horas que me restam aproveito para descansar conversando com meus amigos – em inglês, claro.

 

Quando você entra no terceiro mês fora do seu país, sabendo que a volta está absurdamente longe, você começa a sentir sintomas de uma doença gravíssima: começa a se tornar um brasileiro patriota. Isso significa que você defende o Brasil toda hora, odeia quem fala mal mesmo que com razão e passa a considerar qualquer brasileiro que conhece parte da sua família. Em alguns casos mais graves esse amor se estende à qualquer latino. Mas fiquem calmos, especialistas afirmam que a doença é sua própria cura, pois na medida que ela se agrava vamos aumentando a carência mas também aumentamos o território do amor, até que depois de uns três anos já acreditamos que a Europa faz parte do Brasil e enfim nos sentimos em casa novamente.

 

Quando meus amigos gringos me perguntam se pretendo ficar aqui em Londres pra sempre, eu geralmente respondo ˜I miss my home”. Essa resposta parece estar gravada na minha cabeça e no meu coração. Mas um dia desses, quando soltei essa frase à uma amiga, ela me respondeu: “Então sai mais cedo da aula e vai pra sua casa descansar. Amanhã você vem mais animada pra aula”. Por um minuto pensei que meu inglês estava um lixo e que ela não tinha entendido que eu estava falando do Brasil e não do meu apartamento. Então, como de costume, eu repeti e reforcei: “Estou falando do meu país. Eu sinto falta do meu país˜. E prontamente, ela retrucou dizendo ˜Eu entendi o que você disse, mas quem disse que lá é sua casa? Sua casa agora é aqui!”. Fiquei quieta. Sem dúvida a conversa acabou por ai, mas minha cabeça estava apenas começando a pensar no assunto.

 

As raízes dos seres humanos são profundas, assim como as dos gatos. Experimente tirar um gato do seu território e verá o que acontece. Posso garantir que a experiência é assustadora. Eles se encolhem, se escondem e perdem o rumo até que se acostumem, lentamente, com o novo território. Pois é exatamente assim que aconteceu e ainda acontece comigo. Quando digo que sinto falta da minha casa/meu país, quero dizer que lá eu conheço todos os caminhos, as ruas, as esquinas; lá estão meus primeiros e meus eternos amigos; lá estão aqueles que me alimentaram, me mimaram e me ensinaram sobre a vida; lá tenho um sol diferente, um sol que queimava minha pele e me deixava vermelha desde quando eu era criança; lá tenho meu mar, um mar diferente, um mar que me conhece e que me abraça quando entro nele; lá tem as férias na Bahia e o trabalho em São Paulo; lá tem piada com o sotaque do outro, mas um é mais lindo que o outro. É claro que chamo meu povo de irmão e meu país de casa. Algumas noites vou dormir triste por estar longe e com uma frase que ouvi no seriado “Narcos”, dita pelo Pablo Escobar, na cabeça“Prefiro morrer ao deixar meu país outra vez. Ninguém pode ser feliz longe de casa˜.  

 

Mas agora, depois do tapa na cara que levei da minha amiga e com minha cabeça borbulhando de questionamentos, parei e pensei friamente (é claro que tive que calar o Caetano Veloso que tocava desesperadamente e repetidamente no meu computador): Como posso chamar de casa um lugar que tenho medo de caminhar nas ruas? Como posso chamar de casa um lugar aonde meus irmãos podem me machucar, me roubar ou até me matar a qualquer momento? Como posso chamar de casa um lugar aonde jogamos lixo no chão e merda no rio? Como posso chamar de casa um lugar que só está nas primeiras páginas do jornais internacionais quando acontece um escândalo político? Como posso chamar de casa um lugar que estampa em sua face mulheres nuas como atrativo principal? Pois é, como uma boa bipolar, não posso negar que na manhã seguinte daquela noite saudosa que comentei acima, acordo cedo, vejo uma notícia absurda sobre o Brasil que algum amigo publicou no face e repito, bem de saco cheio, a versão popular da letra do Renato Russo “Que país é esse? É a porra do Brasil!”.

 

Posto os dois lados da moeda ou melhor da cabeça maluca dessa que vos fala, penso que assim como já escrevi em outro texto meu (que ainda não publiquei aqui), não existe perfeição e felicidade absoluta, alguns dias estamos mais para rosa e outros mais para preto. Precisamos apenas aprender a ter equilíbrio e segurar as emoções, sem ser radicalmente rosa ou preto, e aprender a enxergar a beleza dos dois lados. É claro que eu poderia passar o dia escrevendo sobre coisas boas e ruins do meu país, mas minha questão aqui não é sobre pátria, e sim sobre casa.

O que afinal eu chamo de casa?

 

Aprendi que casa tem mais a ver com momento do que com endereço. Descobri que quando me mudo levo comigo minha casa. Ela não é física e não pode ser comprada, ela é simplesmente aonde eu quero estar. Sabe a tartaruga? Então, me sinto como ela. Eu simplesmente juntei minha vida em um casco e carreguei nas minhas costas, lentamente, com medo, às vezes cansada, mas carreguei para onde eu queria ir. Ao meu lado vejo muitas outras tartarugas, que sorriem saudosamente quando falam da pátria que assina seus passaportes, mas que no fundo, assim como eu, sabem que nossa pátria mãe pode ser qualquer lugar que encontremos a paz. Nossos países são somente um pedaço de terra, mas nossos corações às vezes ficam maiores que essas terras e precisam expandir, fugir, ser livres, ser grandiosos, eles precisam ser pátria em outro lugar seguro aonde possam ver seu povo feliz ao seu lado, mesmo que a nacionalidade do seu novo povo seja diferente da sua. Na minha opinião deveria ter apenas um presidente no mundo e apenas representantes em cada país. O mundo deveria ser regido pelas mesmas regras e receber cada ser vivo de braços abertos em cada cantinho existente. Mas ao invés disso, nos ocupamos pensando em coisas pequenas como nossas linhas imaginárias que definem territórios, nossa língua mais importante e mais histórica do que a dos nossos vizinhos, nossos dinheiros imaginários que circulam em contas do “governo” na qual não temos acesso, ou nossas casas que pagamos fortunas para chamar de nossas e que na verdade não levaremos conosco quando passarmos desse mundo para o outro. Deveríamos estar gastando nosso precioso tempo ajudando a vida de bebês que nasceram na sombra do medo e saem de países em guerra civil praticamente a nado nas costas dos seus pais, e que agora, enquanto você está em um lugar quentinho tomando seu café or your English tea, eles já estão com a água no queixo, prontos para segurar a respiração. Acorda Brasil, acorda Europa, acorda meu povo, acorda mundo! Oremos pelo união das pátrias, para que apareçam humanos mais humanos que ajudem o próximo como ajudariam seus irmãos de sangue, pois é isso que elas são, possuem sangue vermelho nas veias, assim como o seu, como o meu, como o de todos que habitam esse nosso mundo…

 

…Ja dizia o sábio José Mujica: “Temos que começar a pensar como espécie e não como país. A generosidade é o melhor negócio para nós.”

Por que as pessoas se casam?

Não sei quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Na verdade, me refiro à outro tipo de ovo e de galinha, totalmente diferentes dos tradicionais. Ando pensando muito, todos os dias, em uma simples pergunta: “Por que as pessoas se casam?” . A resposta é complicada, não sei  se se casam por amor ou se amam para se casar…

Antes de mais nada, vamos colocar os pingos nos I’s: Meu casamento está ótimo, tenho certeza que fiz a escolha certa quando decidi dividir o resto da minha vida com o meu marido.

– Então porque c**** você não para de pensar nesse assunto?

Calma! Eu explico:

– É justamente por conta dessa minha certeza toda de que fiz a escolha certa quando me casei, essa minha ausência de dúvida.

Pois é, gostar de escrever é basicamente arrumar sarna para se coçar, questiono tudo que existe no mundo, mas principalmente o que não existe. É isso mesmo, tento olhar para dentro, não só pra dentro de mim, mas para dentro do mundo. Enfim, o fato é que justamente por achar meu casamento tão natural e feliz, comecei a comparar experiências de amigos, parentes e até mesmo conhecidos, e me dei conta de que eu estava levantando um tapete grande, e que provavelmente iria encontrar muita sugeria embaixo dele. Cada vez que pensava em exemplos diferentes eu me perguntava: Se existem tantas histórias de casamentos curtos que só magoaram os dois, de casamentos longos repletos de mentiras. Afinal, por que essas pessoas se casaram?

Na verdade, mesmo arrotando modernidade quando criticamos religiões, países conservadores, igualdade dos sexos e etc, nós não a pregamos quando o assunto é casamento. Digo isso porque, antes de pensarmos em amar alguém, já somos obrigados a conviver com a pressão de que um dia nós devemos nos casar. Esse pensamento é natural em uma cultura onde os três pilares principais são: ser bonito (a), ser feliz no trabalho e fazer parte de uma família perfeita e feliz. Essa falsa ideologia nos transforma em pessoas obcecadas pelo corpo perfeito com direito a chapa quente no cabelo, cultivar quadrados em alguns lugares do corpo e círculos em outros, nos faz procurar insistentemente pelo trabalho que nos faz mais feliz do que comer Nutella de pijama e, finalmente, pelo casamento tão perfeito que virará modelo no facebook e terá milhões de comentários abaixo de cada foto postada.

Pára tudo!! Pára esse trem e vamos descer e conversar!

Para mim sempre foi óbvio que quando eu fosse escolher um companheiro nós, além de nos amarmos, estaríamos completamente felizes em dividir absolutamente tudo. E neste caso, “tudo” significa tudo mesmo, incluindo: minha TPM, o futebol até tarde, a dor de barriga que não te deixa sair do banheiro por um dia inteiro, a falta de dinheiro, as tarefas da casa, as viagens de férias, os planos para o futuro, a morte de parentes próximos, a demissão, a depressão, o medo, a falta de confiança, o excesso de confiança, os erros, os acertos, o nascimento dos filhos, as noites em claro, a forma de educá-los, ficar longe de nossas famílias se fosse preciso….enfim, dividir a vida. Não estou dizendo que o casamento é difícil, pelo contrário, se ele está sendo difícil demais é porque talvez tenha errado na escolha, mas sem dúvidas o casamento é algo sério e bastante complexo. Sempre digo que não tinha como ser ruim me casar com meu marido, pois eu estava me casando com meu melhor amigo, que me fazia rir, entendia minha vida e minhas piadas, me amava e me queria por perto, genuinamente, o máximo de tempo possível. Sei que existem modelos diferentes de relacionamento que dão tão certo quanto o nosso, mas uma coisa é fato, é preciso haver prazer em estar junto, não se pode aceitar um relacionamento aonde é preciso insistir para estar com seu parceiro no final de semana, ou se ver mais de uma vez por semana. Um relacionamento assim, talvez não se adapte à vida de casado no futuro. Coincidência ou não, a maioria dos casais felizes que conheço sentem saudade do outro quando por algum motivo estão fazendo sozinhos tarefas simples que costumavam fazer juntos, como assistir a novela, ir ao supermercado e etc. É o prazer da companhia. Isso vale ouro em um relacionamento. É por isso que não consigo digerir a ideia de casais que obrigam um ao outro a se casar, que se pressionam, que forçam a situação ou fazem ameaças. Se a pessoa precisou de um empurrão para casar-se contigo, acho que ela não aprecia tanto a ideia de passar todos os dias ao seu lado, ela não aprecia sua companhia, e isso para mim já seria motivo suficiente para sair pela porta e não voltar nunca mais, mas não é o que geralmente acontece. Afinal, quem nunca ouviu um amigo ou amiga dizer, eu penso em casar com o fulano(a), mas ele foge do assunto, diz que não quer casar, talvez só quando tiver 40 anos. Obviamente cada um tem seus motivos, alguns são racionais e se preocupam com dinheiro, com o conforto do outro e etc, isso acho justo e válido, desde que seja mencionado e planejado junto, o que questiono é o parceiro que trata casamento como contrato de escravidão, pensa que isso seria perder sua vida, sua liberdade. Alguém que pensa desta forma, talvez esteja lhe enxergando de forma errada e não aprecie estar com você mais tempo do que com os amigos do futebol ou as amigas do trabalho…

Também tem o outro perfil, o oposto, aquele que ama tanto a ideia do casamento que acha que deve se casar com qualquer namorado(a) que está saindo há uma semana. Esse perfil é sem dúvida o último romântico que o Lulu Santos menciona em sua música, mas como eu disse antes, casamento é algo que envolve sentimento, mas também deve envolver muita racionalidade e, principalmente, um conhecimento profundo do outro. Quando nos casamos por impulso, por amar desenfreadamente alguém que está somente há meses nas nossas vidas, podemos nos deparar com uma rotina torturante após o casamento, quando descobrimos que essa pessoa não tem o ritmo e os gostos parecidos com o nosso, ou simplesmente porque não conhecemos o temperamento real dela, apenas pelo fato de que ainda não vivemos todo tipo de situação ao lado dela. Não existe nada pior do que descobrir depois do casamento que escolheu casar-se com um alcoólatra, ou alguém muito agressivo ou extremamente depressivo. Claro que esses problemas não são o fim do mundo, desde que você saiba da existência deles antes e esteja disposto à enfrentá-los e encará-los juntamente com seu parceiro. Mas, como eu mesma digo, para toda regra existem lindas exceções, tenho certeza que muitos casais que se conheceram e casaram-se em um mês passarão uma vida inteira juntos, assim como os meus pais. Quando falo sobre isso, falo sobre uma maioria esmagadora, mas sei que não são todos os casos. O principal, para mim, sempre foi amar com a cabeça no lugar e sempre me lembrar do meu amor próprio. Eu sempre preferi simplesmente não arriscar achando que seria a exceção, talvez o preço seria alto demais caso eu estivesse errada.

A verdade é que nós, jovens, precisamos nos habituar a pensar na frente e não na festa. Precisamos tratar o casamento com mais responsabilidade, tratá-lo como uma decisão permanente e não temporária. Se for entrar em uma igreja, em um cartório ou na porta da casa do seu namorado com suas malas, nem entre se estiver pensando “Se não der certo a gente separa”. Entenda que dali em diante não é mais só você, só o seu coração. Já que ama seu companheiro(a), se comprometa, se esforce, seja quem você gostaria de ter ao seu lado, seja você o parceiro perfeito. Somente desta forma, sem armas e sem manuais de instrução, apenas com 100% de amor e 500% de vontade é que se consegue estar casado todos os dias. Muitas vezes casar-se significa mudar completamente sua referência do que é certo e errado, significa às vezes escolher perdoar algo que há pouco tempo atrás você aclamava aos quatro cantos ser imperdoável, significa tentar sempre, se esforçar a cada segundo. Você se desconstrói e reconstrói todos os dias para se adequar ao que for preciso, simplesmente pelo fato de que isso tudo vale muito a pena, simplesmente porque ama e sente que é amado, e sabe que quem ama também erra, também cansa, também duvida e, principalmente, também muda.

Casar, palavra que para muitos significa festa e tratam como se tivesse uma data para aquele evento, quando na verdade serão todas as datas dali para frente. Fico irritada quando alguém fala: Meu casamento foi lindo!!

– Oi? Mas ele acabou?

– Não!

– Então agora ele ta feio? Porque você falou no passado?

– É que estou falando da minha festa de casamento.    

Ahhh, tá! É que casamento não é festa! É exatamente a mesma coisa quando as pessoas dizem “Vou ter um bebê”. Não! Você vai ter um filho, que vai crescer, ficar adolescente, ser chato e depois ficará adulto. A velha mania de enxergar só o óbvio, o fácil, o poético, e que no caso do casamento, depois que já assinaram o papel, gastaram milhares de reias em uma festa e mobilizaram os parentes que moram no Nordeste ou no Japão, chegam em casa e percebem que o buraco é muito mais embaixo, que o significa de dividir a vida é também dividir seu tempo, fazer escolhas, e algumas delas não lhe agradarão e sim apenas seu parceiro(a), e claro, acabam se machucando e machucando muitos à sua volta quando decidem desfazer tudo isso. A consequência desse erro não é mortal, mas é dolorosa. Para mim tudo que dói deve ser pior do que morrer. Ja berrava Fred Mercury com suas calças justas na década de 80 “It started off so well, they said we made a perfect pair, I clothed myself, in your glory and you love, how I loved you, how I cried…”.

É uma dor profunda, não só pela perda, mas pelo fracasso. Isso é o resultado daquela sociedade que comentei lá em cima, que trata o casamento como meta, como obrigação. Ele precisa aparentar perfeito, mas quando a verdade vem à tona, o mundo desmorona dentro e fora de casa. É como ser famoso e estar nas primeiras páginas dos jornais com a noticia de que sua escolha foi errada, ou que você foi traído, ou que ele (a) nunca te amou. Esse jornal chama-se rede social, aquela mesma que fizemos questão de postar a foto de terno e vestido branco esbanjando sorrisos. Ela agora, sem nossa permissão, deixa que as pessoas olhem nossos álbuns, vejam que deletamos as fotos com ele(a), que mudamos nosso status de relacionamento e que estamos há alguns dias calados, sem postar nada. Nós somos vítimas de nós mesmos depois que o mundo começou a se comunicar online. Embora eu não concorde que a separação é um fracasso, não posso negar que sempre que converso com alguém recém separado sinto essa energia, e também sinto a mesma energia quando as pessoas comentam sobre o fato. É claro que certas separações são um presente divino, uma ajuda do céus para que possamos recomeçar, mas não podemos ignorar que se separar significa mexer com o coração, o ego, a auto-confiança, significa mexer com tudo, dar explicações para quem não tem absolutamente nada a ver com isso, ouvir opiniões de quem nem se quer se importa com você e, em meio à tudo isso, criar forças para abandonar os sonhos e recomeçar, sem parar de trabalhar e de malhar. Ufa! Precisa ser super-herói.

A boa noticia é que não existe nada melhor do que se casar com alguém especial, nada será chato e você amará chegar logo em casa para passar seu melhor momento do dia ao lado dessa pessoa. Outra noticia boa é que sua vida pode ser maravilhosa sem se casar com ninguém, você pode cultivar bons amigos, namorar muito, estar próximo de sua família e desfrutar da vida. Outra noticia boa é que você pode errar mil vezes, desde que tenha verdadeiramente tentado acertar. Simplesmente não existem regras, o que devemos é viver o agora e aproveitar cada segundo da melhor forma, sem ter a obrigação de fazer nada, fazer apenas por prazer. Como diz meu amigo John Lennon, que me acompanha nas minhas corridas dentro do meu fone de ouvido: Life is what happens to you while you’re busy making other plans.

Pois então viva!

Coloco aqui a música que citei da minha banda favorita (Queen), uma música triste, mas muito linda, que retrata a dor da separação: https://www.youtube.com/watch?v=DqitFnUZ2lU

Também divido com vocês as palavras de John: https://www.youtube.com/watch?v=Lt3IOdDE5iA

E você, o que vai fazer?

Depois que anunciamos nossa mudança para Londres a pergunta que mais respondo é ˜E você, o que vai fazer?”. Estranhamente essa pergunta vem me atormentando um pouco. Ok, pessoal, eu realmente gostaria de surpreender a todos com respostas incríveis como “Vou ser diretora de Marketing da Burberry”, “Vou tirar dois anos sabáticos”, “Vou fazer uma nova personagem na próxima temporada de Game of Trones, que contracena com a Khaleesi e com o Jon Snow”…seria incrível qualquer uma dessas opções, e com certeza as pessoas iriam conseguir passar horas ao meu lado perguntando milhares de detalhes e ficariam super empolgadas com cada uma das respostas. Mas, infelizmente meu discurso é totalmente diferente, e talvez também surpreenda as pessoas, mas não positivamente. Quando eu respondo dizendo que irei estudar inglês e depois, talvez, quem sabe, tentar trabalhar e fazer algum curso que eu goste, ou algum que eu não goste apenas para dar um “up”no meu CV, percebo que as pessoas me olham como se eu estivesse com o dente sujo. Parece que estão descontentes com o que estão vendo e ouvindo. E sempre terminam a conversa me dando dicas e dizendo para eu não ficar sem fazer nada que posso acabar entrando em depressão.

A verdade é que a responsabilidade por esse papo me incomodar não é de quem pergunta e sim de quem responde, mesmo sabendo que as pessoas são extremamente exigentes e nunca estão satisfeitas com minhas respostas, eu deveria estar mais segura, mais preparada para esse tipo de questionamento, e, principalmente mais despreocupada com a reação alheia. Como diz o Otis em uma das músicas mais lindas dos últimos tempos que só fui descobrir aqui em Londres: “I can’t do what ten people tell me to do, so I guess I’ll remain the same”.

Sempre que escutava o inicio da frase “E você, o que….” eu já suava frio. Uma postura infantil e insegura.

Quem foi por 10 anos atendimento de agência de propaganda como eu, ou simplesmente quem já trabalhou com vendas, sabe que para vendermos algo ao cliente, antes precisamos acreditar naquele produto ou ideia. Pois é, o problema é esse. Quando respondo sobre meu futuro aqui em Londres não me sinto confortável, não acredito na minha resposta, e isso faz com que meu tom de voz transpareça insegurança. A minha interpretação desse momento de mudanças e inseguranças que estou vivendo é simples, eu de um lado da mesa e minha vida de outro, e nesse exato momento do jogo minha vida está olhando para mim e pedindo “Truco!”.

Truco? Pois eu estou aqui para te te falar uma coisa, minha cara vida: Então eu peço seis!

É isso mesmo, eu decidi mudar um pouco os planos por aqui, decidi recriar tudo outra vez. E em questão de segundos, quase que magicamente, minha consciência me respondeu o que eu queria ouvir, me respondeu a verdade, o que eu realmente quero fazer da minha vida, bastava eu ter me escutado esse tempo todo. Certo ou errado, agora meus planos vão além de currículo, preço ou conveniência, eles são baseados apenas em vontade própria. E quer saber o que é mais irônico? A resposta estava o tempo tempo na minha cabeça e no meu coração, eu é que não dava bola pra eles, ficava pensando no óbvio, no lógico.

Esse tempo todo, quem sabe durante toda a minha vida, eu estava respondendo apenas o que os outros queriam ouvir, e não o que de fato eu queria. É incrível como sem perceber passamos uma vida inteira pensando em todos, menos em nós mesmos. E isso acontece porque eu e 90% da população desse mundão temos medo de mudar, de assumir que não estamos nem aí para o nosso currículo, de dizer na frente do espelho que estamos cansados do que fazemos, ou seja, nós temos medo de assumir que queremos ser felizes. Mas quer saber, agora eu aprendi: Fale sempre o que de fato você quer fazer, mesmo que sua resposta seja “quero comer hambúrguer agora e depois não sei, preciso pensar”. Vai ver como a pulga, ou melhor, o Poodle inteiro sairá de trás da sua orelha.

Vamos fazer um teste? Então vai lá, me pergunta agora: “E você Johana, o que vai fazer?”

Vou fazer as quatro coisas que eu mais amo na vida. Não, eu não vou comer Nutella todo dia por 2 anos. Vou fazer quatro coisas que sempre quis me dedicar e nunca tive tempo: Correr, escrever, estudar gestão de pessoas e moda. Ufa, quantos planos, né? Pra quem não sabia nem por onde começar…

Ja dizia alguém por ai: A verdade liberta.

Mas corre, porque a vida passa mais rápido que o Usain Bolt, e enquanto você está lendo esse texto ela já está no penúltimo km.

Ah, não deixem de ouvir a música do Otis que coloquei aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UCmUhYSr-e4